Os cineastas que foram para a Guerra

Nova Escola de Marketing
24 de abril de 2017

Cinco cineastas importantes de Hollywood se alistaram e foram enviados para a guerra documentar e fazer filmes de propaganda. Todos eles voltaram com traumas difíceis de superar.

Cineastas que foram à Segunda Guerra MundialComo já comentado anteriormente aqui na coluna, a Segunda Guerra Mundial se beneficiou do desenvolvimento do cinema, em ambos os lados do front, e com isso ela se tornou em um dos episódios bélicos mais bem documentados do século 20.

Hitler foi um que percebeu a força do cinema, e que rapidamente constituiu o Ministério da Propaganda, tendo à frente o fanático nazista Joseph Goebbels, um homem cuja astúcia acabou no final deixando todas as principais bases da propaganda moderna. Por causa da necessidade de promover o partido e as iniciativas do Führer as filmagens para o cinema ganharam precedência. Goebbels era igualmente um confesso admirador do cinema, e “nazificou” o antigo estúdio UFA, criado em 1917, e que na época estava à beira do colapso financeiro.

Entre as mais proeminentes diretoras do período estava Leni Riefenstahl, uma mulher destemida e independente. Goebbels e Riefenstahl não se davam bem, mas a cineasta acabou vencendo e impondo a sua maneira de fazer filmes. É possível que em vários dos seus documentários ela tenha tido uma colaboração pessoal de Hitler. Com o lançamento de Triunfo da Vontade, ela conquista admiradores e prêmios pelo mundo afora.

O filme exibe com técnica de posicionamento de câmera inovadora na época a majestade do partido e a identificação popular com o novo regime. Melhor propaganda, impossível. Goebbels, por outro lado, dizia que era perigoso misturar propaganda com política, e defendia o uso de mensagens subliminares. O tempo provou que a sua teoria estava correta.

Os Estados Unidos, com lembrança muito próxima do seu envolvimento na Primeira Guerra Mundial, fez o que pode para não se envolver no novo conflito. Nem mesmo a pressão de Winston Churchill, na iminência de perder a guerra, demoveu Roosevelt na decisão de não enviar soldados para a Europa.

Hollywood também preferiu se manter afastada. À exceção de Disney, todos os principais grandes estúdios eram dirigidos por imigrantes judeus, que não queriam abrir espaço para a perda do mercado europeu, além de não “futucar” o antissemitismo com vara curta.

A situação mudou drasticamente quando os japoneses bombardearam Pearl Harbor, forçando Roosevelt a declarar guerra ao Império Japonês, aliados dos nazistas.

Os cineastas que foram para a guerra

Hollywood e o estado maior americano não se entendiam muito bem, mas cinco dos seus principais cineastas resolveram se alistar. Foram eles: John Ford, John Huston, Frank Capra, William Wyler e George Stevens. Nenhum deles voltou da guerra sem ter trazido para casa um enorme trauma do que testemunharam.

William Wyler havia assistido Triunfo da Vontade e saiu de lá horrorizado. Achou, em um primeiro momento, ser impossível derrotar os nazistas.

A série Five Came Back (“Cinco Voltaram”), recém-lançada na TV, mostra, em três episódios, a saga desses cinco cineastas, contadas por outros cineastas, a saber: Steven Spielberg (William Wyler), Paul Greengrass (John Ford), Guillermo Del Toro (Frank Capra), Francis Ford Coppola (John Huston) e Lawrence Kasdan (George Stevens).

Em um documentário para a BBC de 1993 sobre John Ford, apresentado por Lindsay Anderson, Robert Parrish contou que Ford havia lhe entregue um monte de filmes trazidos do front de batalha, e ele não sabia o que fazer com eles. Parrish, que editava os filmes de Ford, perguntou a ele se ele queria um filme de propaganda. Ford ficou irritado, e disse para ele nunca mais mencionar aquela palavra. Seu filme deveria mostrar aos pais e mães americanos os horrores que seus filhos passaram em solo estrangeiro.

John Ford foi convocado para participar do dia D da invasão da Normandia. Testemunhas contam que ele ficou arrasado com o que viu, e como era chegado ao vício do álcool, teria se abrigado em uma barraca de soldados e tomou um porre que durou cerca de três dias, ao fim dos quais os soldados pediram que ele fosse removido.

A revolta de Ford tinha razão de ser: a invasão da Normandia mostrou-se um dos mais estúpidos episódios da segunda guerra, com um número enorme de soldados aliados mortos ao chegar às praias. E se a situação não foi ainda pior, foi porque teimosamente parte do exército alemão se concentrou em Pas-de-Calais, onde eles acreditavam ser o local lógico para aquele tipo de invasão.

John Ford inicialmente foi se juntar a forças americanas na Batalha de Midway, onde ficou debaixo de uma artilharia pesada, e o seus filmes registram isso.

Todos os cineastas que foram ao front viram cenas perturbadoras e as registraram em filme, mas o estado maior americano, temeroso da não aprovação do público pela participação na guerra, passou a exercer forte censura para a exibição do que havia sido filmado. Muitos daqueles documentários só foram liberados para exibição muitos anos depois da guerra terminada.

Em um dado momento, um filme sobre japoneses foi feito por Frank Capra (Know Your Enemy: Japan), com roteiro de John Huston, mas até os seus realizadores ficaram preocupados com o tom de ofensa e racismo que domina o filme todo.

O objetivo era doutrinar as tropas sobre a raça que eles iriam combater, mas a produção sofreu percalços e o documentário só foi completado dias após a guerra ter terminado, perdendo assim o seu efeito. No final, o general MacArthur mandou segurar o filme e ainda recomendou a sua não exibição para o público.

Racismo contra alemães e japoneses povoaram filmes de animação, mas os realizadores tomaram uma preocupação de afirmar que os filmes satirizavam “nazistas” e não o povo alemão.

Enquanto alemães usaram o cinema como forma de mostrar a sua superioridade bélica, os cineastas americanos se viram com dificuldades diversas para somente colocar na tela a realidade da guerra e o seu repúdio à mesma.

Cada um deles volta para casa com enormes traumas e com ferimentos físicos. William Wyler, por exemplo, voltou quase surdo, vítima de uma viagem em um avião bombardeio sem o protetor de ouvidos.

A passagem pelos campos de concentração deixou os que por lá passaram em dúvida se deveriam filmar corpos mutilados e amontoados como se fosse lixo e depois exibi-los às plateias americanas.

O resultado da passagem pelos campos de batalha, que tão drasticamente mudou a cabeça desses cinco homens, iria se refletir depois na produção de filme com poderoso conteúdo sentimental e de reconciliação.

Ford, ainda com os ânimos revoltados, fez “Fomos Sacrificados” (“They Were Expendable”), para M-G-M, como uma espécie de protesto contra a inutilidade da morte na área de batalha. “Expendable”, no meu melhor sentido, denuncia a situação do ser humano que só é usado para um propósito, ao fim do qual ele é descartado ou ignorado.

Pois tal foi a situação que muitos veteranos se encontraram depois que a guerra acabou, alijados da sociedade que eles próprios defenderam. Esta mesma condição iria se repetir com a volta dos veteranos da guerra do Vietnam, hostilizados por vários segmentos da sociedade americana.

A censura em Hollywood ainda iria abrir fogo contra cineastas, durante a década de 1940, por motivos diversos. Um desses casos esdrúxulos foi o de Dalton Trumbo, já comentado aqui neste espaço.

O poder de imagem do cinema ficou patente em toda a Segunda Guerra Mundial, e hoje serve de base para estudo e procura de respostas para algo impensável, que parece não ter justificativa senão política, e que tem como consequência o extermínio em massa do dito “ser humano”, não importa se militares ou civis.

Nas guerras percebe-se que ninguém tem moral para falar nada sobre heroísmo. Campos de concentração não foram inventados por nazistas. E nunca é bom esquecer a decisão americana de lançar duas bombas atômicas em solo japonês, que mataram civis e deixaram a área com níveis de radiação que provocaram doenças por anos a fio.

O uso da bomba atômica deixou europeus temerosos nas décadas seguintes ao pós-guerra, e ainda hoje este temor está presente pela possibilidade deste poderio bélico ser usado para devastar o mundo.

Documentários de propaganda política do passado feitos para o esforço de guerra poderiam perfeitamente serem usados hoje para produzir a melhor propaganda anti-guerra que até mesmo o cinema convencional não conseguiu produzir. [Webinsider]

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