A visão dos anos 60 pelo seriado Aquarius

Nova Escola de Marketing
26 de setembro de 2017

O seriado "Aquarius" pinta um retrato nada lisonjeiro da década de 1960 e usa o famigerado Charles Manson como figura central para arregimentar suas críticas.

Não é nem foi a primeira vez, e nem será a última, onde exegetas, historiadores e escritores, tentam interpretar o que se chamou de “Era de Aquário”, durante os anos de 1960, símbolo da rebeldia, libertação ou renovação de uma parte da juventude não conformista.

O seriado de TV Aquarius faz exatamente isso, com um agravante: está inundado de estereótipos e críticas à sociedade americana, na pele do psicopata Charles Manson, que ficou famoso por ter liderado o assassinato da atriz Sharon Tate e seus amigos, com requintes de crueldade, chocando Los Angeles e de tabela o resto do mundo.

Eu também vivi a década de 1960 como adolescente, mas ao contrário dos meus conhecidos de infância, era filho temporão de um casal que foi educado em outras bases e em outras épocas, cercado de um carinho que os meus parceiros não tiveram de seus pais. No fim deste período, e já na faculdade, eu fui convidado para viver em uma comunidade por um colega do campus. Achei legal, me senti lisonjeado, mas declinei o convite, porque não tinha razões para aceitar. Dentro da minha casa, o ambiente era harmônico, e além de nunca ter sido vítima de repressão alguma, sempre fui estimulado pelos meus pais para crescer e evoluir.

Eu vi ao meu redor, e já no ambiente acadêmico, jovens que se rebelaram contra os pais, entre eles uma moça que fugiu de casa várias vezes. Os pais chamaram a polícia, e acusaram os seus amigos “subversivos” de a terem incentivado a pular fora. Anos depois, eu a encontrei casada e feliz com um rapaz tímido, vivendo em um apartamento pequeno, sem móveis e sem luxo, tudo muito “hippie”.

No seriado Aquarius, o contraste é óbvio: logo no início do primeiro episódio uma moça de 16 anos, filha de uma família de classe média alta da sociedade local, sai escondida para a farra com o namorado, e acaba atraída pelo famigerado Charles Manson e pela “família” que vivia com ele em uma comunidade. A moça é estuprada por Manson e suas seguidoras, foi atraída pelo ambiente e resolveu ficar por lá mesmo.

Terror psicológico

E neste ponto se desenrola uma estória de abuso e terror psicológico, em um enredo que não se define se é mais um seriado policial ou uma crítica à situação social da época. No caminho, e usando Manson como exemplo, o seriado pinta um retrato tenebroso da comunidade hippie, e notem que não é a primeira vez que Hollywood faz isso.

O notável neste caso é que Aquarius foi criado pelo escritor John McNamara, roteirista do excelente “Trumbo”, já comentado nesta coluna.

A abordagem de McNamara talvez nem tenha sido o problema, o que se percebe são atores sem entusiasmo algum de colaborar com as críticas sociais mencionadas em profusão no roteiro. É possível que esta idiossincrasia seja resultado da multiplicidade de roteiristas, muito comum em seriados de televisão deste tipo.

Um outro aspecto da estrutura dos seriados modernos que atrapalha a quem assiste é a atmosfera novelesca que termina por esticar em 70 capítulos uma estória que poderia ser contada em meia hora. Quem conhece o histórico do assassinato de Sharon Tate prevê onde isso vai parar. O que fica no meio da narrativa é um conjunto de cenas e diálogos que aparentam nunca chegar ao desfecho da estória.

seriado Aquarius

Charles Manson era um psicopata, e portanto jamais poderia ser arrolado como referência do comportamento extrovertido da sociedade hippie. O movimento hippie e a formação das comunidades teve base no inconformismo dos jovens adultos com a educação e a cultura dos seus pais. Os hippies se ampararam na contracultura, e procuravam uma atmosfera praticamente utópica de paz e amor, sem querer repetir o chavão da época.

Na década de 1960, a juventude americana vinha sendo açodada pela perspectiva pouco animadora de ser convocada para lutar na guerra do Vietnam. Muitos se recusaram a servir e foram presos por desacato. Os jovens americanos deste segmento social odiavam os políticos e abominavam a beligerância pseudo protecionista empreendida pela administração pública norte americana, que notoriamente beneficiaria a indústria bélica (e o faz até hoje), às custas da destruição das vidas dos outros.

O movimento hippie não sobreviveu por muito tempo. É fato conhecido que os hippies de outrora acabaram se tornando pessoas conservadoras. Pode parecer contraditório, mas isso é facilmente explicável pela transição entre a adolescência rebelde pela qual todo mundo passa, indo para uma idade adulta onde as pessoas precisam assumir responsabilidades para conseguir sobreviver.

O caso Sharon Tate na vida real e a derrocada de Manson

O seriado mostra cenas em flashback e imagens idênticas àquelas ocorridas em 09 e 10 de agosto de 1969, quando Sharon Tate e seus amigos foram encontrados mortos, assassinados pelo grupo de Charles Manson. Somente no último capítulo se mostra a evolução desse evento, mas a estória para bem antes da prisão de Manson.

Até hoje, não ficou claro porque a escolha recaiu em cima da entourage da atriz, em um ataque de fúria à sua casa, e o seriado não se propõe a fornecer uma razão convincente.

Três das amantes seguidoras de Manson, e mais um rapaz que fazia parte do grupo, e que havia foragido, foram presos e igualmente condenados à morte. A sentença foi comutada para prisão perpétua. Manson está vivo e preso até hoje. Uma coleção de fotos mostra a quem tiver interesse uma sequência do desenrolar desta estória.

Manson liderou, mas não participou diretamente do ataque à casa de Sharon Tate. Segundo uma das suas seguidoras, aquele terror todo era para tornar público um protesto contra o status quo que ele considerava prejudicial à evolução mística da sociedade, segundo os seus preceitos distorcidos de liberdade.

Voltando novamente ao enfoque do seriado, até agora, não sei por que cargas d’água, o ator Shakespeariano Gethin Anthony foi convocado para interpretar o famigerado Charles Manson.

Talvez seja porque é difícil mesmo, com método ou sem método, levar à tela uma figura manipuladora como Manson. Gethin se esforça e tenta fazê-lo misturando sedução e violência, e é possível que esta talvez tenha sido mesmo a persona do homem assassino cercado de mulheres, que dele sofriam abuso, mas que não se afastavam nunca.

Claro que é bastante provável que nenhuma dessas mulheres podia ser normal, mas este é um aspecto mostrado superficialmente pelos roteiros dos episódios, dando a entender que a participação feminina se deu mais pela necessidade imperiosa de fugir dos pais e se isolar em um ambiente onde poderiam ter a liberdade que quisessem sem serem molestadas. No seriado o chamado “amor livre” é exibido como promiscuidade sexual irresponsável.

Nem Manson nem a sua “família” foram presos pela polícia imediatamente. Fotos desta época mostram um ar de deboche das moças, que se mostraram à justiça sem qualquer remorso ou arrependimento pelo que fizeram com Sharon Tate e seus convidados. A atriz, na época casada com o cineasta Roman Polanski, estava grávida de 8 meses e foi sadicamente retalhada pelos seus agressores. O ataque foi executado com facadas e tiros. Supõe-se ser de Sharon o sangue usado para pintar na porta a palavra “pig”, ou “porco”, que no jargão da época se referia aos membros da polícia.

O seriado usa na segunda temporada títulos de episódios em referência aos nomes das músicas do conhecido “White Album”, gravado pelos Beatles um ano antes, e que dizem ser alvo da apologia de Manson ao processo revolucionário, em particular “Helter Skelter”, que ele e seus seguidores diziam ser o prenúncio de uma guerra apocalíptica entre brancos e negros.

A década de 1960 foi um horror, literalmente

Se roteiristas forem se debruçar na maioria dos distúrbios políticos e sociais da década de 1960, o que não vai faltar é assunto.

Em cada parte do globo os motivos de rebelião acompanhados de repressão foram diferentes. E como sempre a sociedade em geral passa ao largo de todas essas revoluções. As pessoas parece que se incomodam mas continuam lutando pelas suas próprias vidas, independente de potenciais modificações da estrutura social.

As guerras internas são fruto de um ambiente político conturbado, e no caso norte-americano o resultado de uma situação eclodida pela incompatibilidade entre uma sociedade conservadora estabelecida e outra, emergente, que não se conformou nem se adaptou a este conservadorismo.

Situação bem diferente aconteceu no resto das Américas, aflita por ditaduras militares e pelo extermínio de jovens com suspeita de atividades subversivas contra o establishment.

Do lado europeu, a década de 1960 também não foi tranquila. Em vários países a juventude universitária se rebelou contra o sistema, e foi acompanhada pela inevitável repressão estatal.

A rebeldia europeia não foi só contra a direita conservadora. Na chamada Primavera de Praga, ocorrida em 1968, a luta foi contra o autoritarismo militar da antiga União Soviética, e contra a opressão do regime comunista.

Se alguma coisa positiva se pode tirar destas tentativas transformadoras é tentar aprender lições que o tempo ensinou. Os antigos diziam que “o tempo é o senhor da razão” e eles estavam certos. Mas, nós de fato aprendemos?

Se a gente, que passou por parte disso durante a década de 1960, parar para pensar, poderá notar que a transformação social não é necessariamente melhor para o ser humano. A comunidade hippie pregou o desprendimento aos bens materiais, em prol de um contato livre entre pessoas, e hoje, nós estamos como?

Basta sair na rua, ir a um local público e observar a multidão portando um telefone celular nas mãos ou no bolso. Telefones esses que extrapolaram o mero aspecto da comunicação convencional. Em outras palavras, o ser humano, apesar dos avanços tecnológicos, ainda se ressente da falta do contato físico e tenta usar a comunicação eletrônica como substituto, sem perceber ou querer admitir que tal recurso simplesmente não funciona!

[Webinsider]

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