Encontro um colega do pré–vestibular. Dias depois, outro. E tivemos a idéia de criar uma lista de discussão na rede. Assim foi feito.
Fizemos um primeiro encontro presencial com quatro participantes e já há outro marcado com quase 15, em novembro, depois de três meses de lista e 26 anos de desencontros.
No ambiente virtual, recuperamos a memória do passado. Recompomos a relação de nomes da turma, as fotos, a caderneta escolar, as paródias da hora do recreio.
Minha esposa viveu algo parecido. Ligaram para participar de uma festa do pessoal do ginásio. Depois, criaram um grupo virtual. A partir daí, os excitados ex–alunos trocam mensagens, diariamente, em grande profusão.
Tenho outra experiência com o grupo de ex–alunos da faculdade. Uns moram no Rio, outros em São Paulo ou fora do país. Somos dez jornalistas, que “conversam” diariamente. Estamos juntos desde dezembro de 1998. Completamos cinco anos de convivência digital.
Neste ínterim, enviamos 12 mil mensagens, uma média de 2.460 por ano, 205 por mês, seis por dia. Nos encontramos diversas vezes e compartilhamos os momentos alegres e difíceis.
Ou seja, é um fenômeno social que aproxima pessoas separadas pelo tempo e regiões. Um movimento pós–moderno de reaproximação do ser humano. É a luta contra a impessoalidade da cidade grande. O resgate do papo do recreio.
Não resta dúvida que, ao longo dos últimos anos, sepultamos espaços comunitários. Ninguém esbarra mais com ninguém. Aquela passadinha para ver como estavam as coisas, foi enterrada ao som da insegurança, que metralhou a conversa na rua.
A rede, sim, pode ocupar esse espaço perdido, que agrega pessoas de diferentes regiões. Pode reforçar o encontro entre amigos atuais e antigos, ou entre vizinhos, como as listas de associações de moradores.
Ou criar ainda um elo de internautas desconhecidos por assunto de interesse, uma tarefa mais complexa, mas não menos desafiante.
Noto que as críticas ao mundo virtual estão geralmente associadas ao crescimento dos movimentos anônimos nos chats e similares, nos quais as pessoas se escondem e se viciam.
Obviamente, que existem chats e chats, pessoas e pessoas. Não são poucos os casamentos e os grupos que surgiram e se consolidaram nas salas de bate–papo. Ou seja, quando o chat tem a função de um barzinho, conhecer pessoas para sair – é apenas mais um ponto de encontro. Quando o desejo é apenas se camuflar, aí podemos ter um problema.
O que vale é a intenção. De onde teclas? O que procuras? Encontro ou esconderijo? A internet do relacionamento gera afeto, amor. A anônima, o distanciamento, o isolamento e a neurose.
Educadores, psicólogos, autoridades, todos nós, devemos estimular a chamada rede da troca. Aquela que incita o encontro presencial, a saída da pessoa para a rua, à luz.
É uma pequena marreta virtual nas grades da cidade grande, que nos cercaram nos últimos 40 anos. Nossos avôs conversavam na sala. Nossos pais emudeceram diante da televisão. E nós tentamos agora resgatar o diálogo, via web, com a seguinte questão na ponta do mouse: papo de esquina ou de caverna? [Webinsider]
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