A Netflix lançou o seriado Brasil 70: A Saga do Tri, em um tom de drama documentarista, que recebeu críticas ao lado político e licença artística discutível.
Eu assisti com interesse o seriado “Brasil 70: A Saga do Tri”, lançado recentemente pelo Netflix, porque se existe uma Copa do Mundo que eu guardei detalhes foi a de 1970. As pessoas da minha geração ouviam as copas pelo rádio, a de 70 foi a primeira vez que se pode ver os jogos transmitidos ao vivo pela TV. Depois disso, vários documentários foram feitos cobrindo a copa de 1970.
Eu e um amigo que morava em uma rua próxima decidimos assistir juntos a todas as partidas. No nosso local, a recepção de TV era péssima, lá em casa o sinal da TV Tupi era pelo menos um pouco melhor. Nas transmissões, o comentarista Rui Porto era só otimismo. Eu vim a conhecê-lo em um breve encontro no prédio da TV Tupi no ano seguinte, quando ele me falou sobre as antigas diretorias do Fluminense. Na Copa de 70, Rui nunca se deixou abater por qualquer jogada que fosse do nosso time.
Eu assisti todos os cinco episódios do seriados de uma vez só. Hoje, olhando os comentários no IMDb, eu observo que muita gente ficou atenta ao lado político do roteiro, e muitos se queixaram da caracterização do Pelé como um jogador inseguro.
O desenrolar da preparação e da copa
A CBD havia chamado o jornalista João Saldanha para dirigir a seleção, e foi ele quem convocou um time de craques. Ao contrário das convocações posteriores, Saldanha chamou somente jogadores locais, ao invés de outros que já tinham ido jogar no exterior. E nem precisava, porque o que nunca faltou no Brasil foram jogadores de alto nível competitivo. Porém, depois de uma desavença com o então presidente militar Garrastazu Médici, Saldanha foi demitido, e em seu lugar chamado Zagallo, que fora campeão do mundo como jogador duas vezes, 1958 e 1962.
Um dos aspectos mais importantes naquela época foi a presença, dizem que convocada pelos militares, de Carlos Alberto Parreira, Cláudio Coutinho e Admildo Chirol, que introduziram o Teste de Cooper na preparação física. Nas, não foi só isto que eles fizeram. Jogadores não foram direto ao México, e sim a lugares com altitudes em escala crescente, de tal forma que eles suportaram melhor a altitude e o calor do ambiente da Copa. Pelé foi examinado na Santa Casa do Rio de Janeiro, onde foi constatado que ele tinha deficiência visual. Um amigo meu esteve por lá, inclusive.
Não vou querer aqui repetir o que aconteceu. Basta dizer que em alguns momentos, a nossa apreensão e a da imprensa tomou conta do nosso espírito: o jogo contra a Inglaterra foi dramático, e o jogo contra o Uruguai também. O medo da repetição de 1950 foi real. Meus pais tinham ido naquela final e viram o Maracanã inteiro sair chorando do estádio. Barbosa, o grande goleiro do Vasco, sofreu muito com o gol que deu o título ao Uruguai.
Cabe também citar alguns momentos dramáticos nas partidas. Um deles foi o chute de um atacante inglês no rosto do goleiro Felix, outro foi o de Carlos Alberto dando um chega para lá em um adversário, para intimidar e dar o troco nas jogadas violentas da década de 1966, quando Pelé foi literalmente caçado em campo, sem o juiz expulsar ninguém. Saldanha, por causa disso, havia dito que eles iriam ao México jogar como “feras”, repudiando aquela violência que tirou Pelé da Copa de 66.
Na minha memória, ficaram para sempre o gol de Jairzinho no 1 a 0 contra a Inglaterra, uma pintura de jogada de Tostão, e o gol implacávelde Carlos Alberto na final contra a Itália, sepultando as esperanças do adversário e dando o título ao Brasil.
O seriado, eventos corretamente descritos e as licenças artísticas discutíveis
Muita gente que criticou o seriado no IMDb tem razão, quando protestam contra a exposição de Pelé como um indivíduo traumatizado, fraco e inseguro. Aliás, o ator Lucas Agrícola mimetiza muito bem as expressões faciais do grande craque, portanto não foi culpa dele as mazelas do roteiro.
Outra crítica correta foi a exagerada insistência dos roteiristas em enfatizar os aspectos políticos da década de 1970, quando os militares estavam no poder. É provável que quem criticou não tem mais paciência e interesse em ver filmes políticos atuais com tendenciosidade esquerdista, sem qualquer contrapartida ou discussão sobre o que se passou naquela época.
Não só isso, mas porque, infelizmente, o Brasil está há anos vivendo uma polarização entre esquerda e direita, com um ambiente inundado por corrupção de políticos e empresários, entre os que estão no poder e não querem perdê-lo. Às vezes, me passa a impressão de que muita gente de esquerda não evoluiu e está se esquecendo que o regime militar já acabou há décadas, e continuam com aquele discurso absurdo do “nós contra eles”, e não perdoam quem pensa diferente, em franca e desonesta censura e mentiras diversas nas mídias.
A meu ver, mesmo com todo o capricho dos realizadores, houve um abuso de licença artística em todos os episódios, e quem viveu aquela época percebe isso claramente. Rodrigo Santoro, por exemplo, interpreta João Saldanha de forma estereotipada, Bruno Mazzeo é inconvincente como Zagallo.
Por acaso, Saldanha deu uma palestra sobre futebol no auditório nobre do Centro de Ciências da UFRJ, anos depois da Copa de 70, e eu estava lá para ouvir o que ela tinha de experiencia de vida àquele respeito. Zagallo foi aluno do Externato São José, e eu sou testemunha de uma homenagem feita a ele pela TV Tupi, transmitida direto do campo de futebol do colégio. No seriado, ele aparece rezando e beijando uma imagem de São José o tempo todo.
Já Carlos Alberto Parreira, eu o vi dando aula de futebol na Escola de Educação Física da UFRJ, mas creio que ele estava lá a convite. Quase fiquei lá para assistir aquela aula, mas estava indo para um compromisso, então não pude ficar. Sei que Parreira é um dos maiores conhecedores de futebol deste país. Em duas ocasiões distintas, ela honrou a camisa do Fluminense, seu clube formador, primeiro na década de 1980, com aquele time fantástico da época, e depois tirando o clube do buraco, quando a omissão da diretoria deixou o time cair para a terceira divisão, sem fazer nada a respeito.
No seriado, ele aparece com pouca ênfase ou detalhes sobre a sua capacidade como preparador físico. Coutinho, eu nem me lembro mais se foi mencionado.
A seleção de 1970 foi, na minha opinião, a melhor de todas as boas seleções que o Brasil já teve. Infelizmente, este tempo já passou e parece que não volta mais. [Webinsider]
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Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.









