E o vendedor de cofres parado esperando um freguês

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Rotina. Se existisse um veneno contra criação, essa palavra apareceria em letras garrafais no rótulo. Como ainda não inventaram, sinto que tomo um gole imaginário todos os dias ? e um bem maior sempre que almoço na praça de alimentação de qualquer shopping. Afinal, pior do que falta de opção, só a abundância de opções indesejáveis. E já que capitalismo saiu vitorioso da Guerra Fria, restou ao proletariado o direito de optar entre fast foods.

Terminado o almoço, pago o estacionamento ? é o único momento em que o shopping não me dá outra opção ? e sigo de volta para a agência guiado pela minha inseparável rotina. No caminho, sempre passo em frente a uma caminhonete encostada perto de um parque com uma faixa ?Vendo cofres?.

Dentro, vários cofres pesados de metal em todos os formatos e tamanhos. Ao lado, um senhor pacato sentado em um banquinho lendo jornal à espera de sua freguesia. Todos os dias, na mesma hora, no mesmo lugar. Mas nunca consegui entender direito o que ele faz ali.

Já cheguei até a cogitar a hipótese de ser apenas um seqüestrador vigiando de tocaia alguma possível vítima. Logo dei-me conta de que seria um disfarce óbvio demais ? e vender redes, por exemplo, traria muito mais mobilidade para uma pessoa com más intenções. A pergunta, portanto, permanece sem resposta: o que aquele senhor espera? Será que ele realmente imagina que alguém em sã consciência, ao passar por ele, comprará um cofre por impulso? E caso algum louco sinta uma vontade irresistível de levá-lo, como irá transportar?

Pensando bem, esse senhor não faz nada diferente do que muitos de nós fazemos todos os dias: vendemos simplesmente por vender. Sem pensar no público. Sem entender melhor o produto. Uma prática que tem se incorporado cada vez mais à rotina das agências de publicidade ? que, muitas vezes, são tratadas como “salvadoras da pátria” de produtos com um potencial de venda tão baixo quanto o de um cofre.

A estratégia de comunicação, portanto, acaba sendo a do ?vamos primeiro chamar atenção para depois decidirmos o que faremos com ela?. E, ironicamente, na criação ?para ontem? acabamos esquecendo do amanhã.

Mas a internet (sempre ela) conseguiria dar um jeito nos negócios do tio da caminhonete. Se eu fosse a agência dele, brincaria exatamente com o fato de ser um produto inapropriado para uma venda direta. Assim, em vez de valorizar seus atributos, subverteria completamente o fluxo da comunicação e chamaria a atenção do público através dos pontos negativos de um cofre ? para só depois dar um sentido lógico a tudo aquilo. Compliquei? Então explico no próximo parágrafo ? só para criar aquele suspense típico das apresentações de campanha.

Em vez de uma simples chamada vendedora, colocaria somente um endereço na faixa: www.vendocofres.com.br.

Portanto, quem passasse de carro por ela ficaria tão intrigado quanto eu fico todos os dias. As pessoas, então, entrariam correndo na internet para tentar entender a cena inusitada que acabaram de presenciar. E dariam de cara com um site de investimentos com a mensagem: ?Quer um cofre? Então aprenda a juntar dinheiro pra guardar dentro dele?.

Ou seja, em vez de vender o produto, eu venderia um conceito maior, mais abrangente e que atinge públicos de todas as rendas ? principalmente os que nunca teriam ?motivos? suficientes para ter um cofre em casa. E seguiria uma mudança de foco na comunicação que as grandes empresas têm feito hoje em dia. Todas se deram conta de que é muito mais poderoso anunciar a liberdade do que um mero carro. Sonhos realizados em vez de fundos de previdência. Vida saudável no lugar de comidas light. Saúde financeira, não cofres.

Assim, a publicidade vende atributos intangíveis que não podem ser comprados, mas que satisfazem muito mais do que qualquer produto. E as pessoas vão, inconscientemente, pagando por tudo aquilo que falta em suas vidinhas rotineiras: paz, amor, segurança, carinho, tranqüilidade, tempo para brincar com os filhos. Afinal, o vencedor capitalismo já conseguiu encher as pessoas suficientemente de produtos e sanduíches com picles. Falta agora dar de volta tudo aquilo que um ser humano realmente precisa.

Se eu fosse um pseudo-filósofo, concluiria esse texto dizendo que os produtos se transformaram em “metonímias das carências humanas”. Mas como sou apenas um publicitário, prefiro voltar à ação de guerrilha dos cofres ? que é bem mais divertida.

E como o absurdo é carro-chefe dessa empreitada, faria com que ele se tornasse ainda maior: levaria a ação para outros lugares. Já pensou se ele vendesse cofres na areia da praia? Ia chamar mais atenção do que qualquer outro vendedor ? e se a verba fosse suficiente, ainda anunciaria o endereço do site naquele aviãzinho que sobrevoa as orlas. Um monomotor vendendo cofres? Perfeito. E o melhor: quebraria a rotina de todas aquelas pessoas que esperavam ver os tradicionais anúncios de protetor solar.

Por falar em rotina, mudarei a minha amanhã. Ao passar pela caminhonete, vou encostar o carro e trocar uma idéia com o tio. Não sei se ele vai topar (ou entender) meus planos. Mas, pelo menos, vai parar de ler o jornal para me ouvir por, no mínimo, 30 segundos. Só que dessa vez, sem temas óbvios. [Webinsider]

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Avatar de Eco Moliterno

Eco Moliterno é publicitário.

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14 respostas

  1. Em uma palavra: Du CARALHO(eu sei que são duas).

    Ótimo texto, grande campanha e maldita rotina.

    Costumo seguir um lema:
    todos os dias faça algo te assusta

    Quebrar a rotina é preciso, faz o coração bater mais forte.

  2. Parabens pelo artigo!
    Apenas uma observação: uma empresa de investimentos jamais aconselharia uma pessoa a comprar um cofre. Ela aconselharia a aplicação na respectiva empresa 😉

  3. Eco, parabéns pelo artigo!
    Gostei bastante do raciocínio e acho que é bem por aí mesmo. Infelizmente, no Brasil, não são somente as pequenas e médias empresas que são compradas e esquecem-se de vender. Isto também acontece em multinacionais.
    Realmente a verba para toda essa campanha é um problema, porém antes disso vem o fato de que a comunicação e o marketing em si ainda não são colocados de forma primordial nas empresas. Essa é a experiência que eu tenho em 7 anos de atuação na área.
    Nossa briga ainda vai longe!

  4. Olá Eco Moliterno, tudo bom? Espero que sim!

    Eco, não concordo com sua análise macro-econômica e sua estratégia para o negócio ampliado da empresa solicitada, neste caso uma empresa de venda de cofres não uma empresa de análise financeira, algo que nem de longe tem a ver com o negócio da empresa. Talvez a estratégia de varejo adotada pela empresa não esteja alinhada com sua visão e missão, provavelmente eles não tem idéia desses nomes, mas ao certo eles tem um objetivo que é a venda de cofres, a inovação tem que seguir os objetivos estratégicos da organização e a segmentação de mercado traz enormes benefícios para as empresas. Oferecer um produto que não é o cargo chefe da empresa, simplesmente por achar que se deve fazer assim, sem uma análise estatísca é afundar ainda mais a empresa do tiozinho, sua análise pode ser comparada com a idéia do tiozinho vender cachorro quente como novo produto, sendo o cachorro quente mais fácil por não demandar alto nível intelectual como abrir um site vendendo análise financeira.

  5. Cofres certamente poderiam ser vendidos de formas mais criativas, mas um pouco de realidade nos traria melhores exemplos: faixinha no avião deve ir um pouco além do budget do cliente ;-). Na faculdade, era divertidíssimo fazer ensaios com produtos famosos e verbas de alguns milhões por ano. Depois de formado, vi que as verbas são um pouco mais modestas (a não ser que se trabalhe na Wunderman ou em alguma concorrente).

    Que tal vender cofres com ações acessíveis a um mortal (ou a pequenas empresas)? Esperar o freguês enquanto nos afogamos na rotina é negativo, sem dúvida, mas ações de guerrilha ou mesmo ações de comunicação oriundas de um planejamento são sonhos impossíveis para 99% das pequenas empresas (vendedores de cofres). Estou falando de gente que, mesmo administrando bem seus empreendimentos, não tem verba de publicidade para pensar como se ensina no manual.

    Taí um bom desafio! 😉

    EM TEMPO: Para evitar confusão, esclareço que achei o texto válido e sou muito favorável a planejamento. Abs!

  6. Adorei o texto as idéias e comentários….

    Também passo sempre por um vendedor de cofres e suas idéias se implementadas me fariam sem dúvida ter ainda mais vontade de consumir um cofre. rs

    Abs,

    Renato

  7. Parabens, pelo Raciocínio, quero dizer que sou adepto da públicidade, porém, tenho queimado fosfato no intuíto de diferenciar minha empresa das empresas concorrentes., já que voce gosta de diferenciais, te desafio a mostrar algo que me promova frente aos outros. Aviso que invisto em quatro midias impresas e duas fonadas, porém contra preços baixos e amadorismo, ainda não encontrei argumentos que convecessem os cliêntes a me darem preferencia.

  8. Vender cofres em locais públicos em São Paulo é muito comum. Na zona leste desta capital, por exêmplo,vende-se cofres até em carros populares da década de 70 ou 80.
    As pessoas gostam de juntar coisas e precisam guarda-las com segurança, portanto nada mais natural que vender cofres…
    Escrevemos simplesmente por escrever. Sem pensar no público. Sem entender melhor o texto. Uma prática que se tem incorporado cada vez mais à rotina dos escritores? que, muitas vezes, são tratados como ?salvadores da pátria? de idéias com um potencial de convencimento tão baixo quanto o de a de um vendedor de cofres.

  9. Simplesmente sensacional tudo q vc escreveu.
    eu ja tinha pensado exatamente como vc ao ver pessoas venderem coisas tão diretamente q ninguém iria comprar.

    gostei do seu texto.
    parabens

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