Nat King Cole gravou interpretações icônicas, com arranjos de Billy May, nos estúdios da Capitol.
Na década de 1960 o meu irmão viajou aos Estados Unidos a trabalho, e trouxe consigo uma novidade: um toca-fitas Learjet para reproduzir fitas em cartucho de 8 trilhas, feito para ser instalado em carros, que foi o que ele fez.
Um dos cartuchos que ele trouxe tinha duas gravações do Nat King Cole: L-O-V-E e Let’s Face The Music, lançados em 1964. A primeira delas aconteceu um pouco antes do cantor ser diagnosticado com câncer de pulmão, vindo subsequentemente a falecer. A segunda foi na realidade gravada em 1961, com a participação de Billy May nos arranjos.
O disco de Nat com Billy May foi diferente dos demais, devido principalmente aos arranjos pulsantes daquele maestro arranjador. O repertório foi muito bem selecionado e até hoje, ouvindo o disco, dá vontade de escutá-lo até o fim. May soube como ninguém dar alma a todas as músicas. Nat tocou órgão Hammond em várias delas, quer dizer uniu-se o antigo músico de Jazz com o cantor popular, em nuances sofisticadas. Notem que nem todo disco se consegue um clima desse tipo, porque são momentos de pura inspiração capturados em fitas magnéticas da época.
Ambos os discos daquele cartucho de fita ficaram na minha memória musical de um adolescente de quase 15 anos de idade. Nesta época da minha vida, eu já era fanático por Jazz e depois por Bossa Nova, ou seja, já tinha percepção clara dos arranjos escritos por Billy May e da sua contribuição ao disco
Lançamentos em CD
Discos de catálogo nem sempre foram lançados em CD, mesmo tendo passado um tempo considerável da presença do formato. Eu estava em Cardiff, quando na loja da HMV eu achei o disco L-O-V-E, um achado e tanto.
Let’s Face The Music, no entanto, nada de aparecer. Na década de 1970, um colega de turma da faculdade, que frequentava a minha casa, me mostra uma fita pré-gravada com esta gravação. Infelizmente, ela foi produzida com velocidade de 3 ¾ ips (polegadas por segundo), ao invés das habituais 7 ½ ips. Com isso, a qualidade do áudio deixava muito a desejar. Mas mesmo assim, eu dei um jeito de fazer uma cópia em outra fita de rolo lá em casa.
Ainda em Cardiff eu dei sorte de achar um CD duplo com todas as sessões de gravação do Nat King Cole com Billy May, com o título “The Billy May Sessions”, lançamento Capitol Jazz-EMI.
Graças a este lançamento foi que eu pude reconstituir o disco original que eu tanto gostava, só que anos depois, quando se tornou possível salvar as faixas para o HD do computador e depois queimar em CD gravável. Eu havia anotado em um caderno a ordem das faixas de todas as minha antigas fitas, hoje disponíveis na Internet, mas sem elas eu não teria conseguido remontar o disco como queria.
O folclore da presença de Nat King Cole no Brasil e a sua escolha de músicas brasileiras
Até hoje eu leio todo tipo de informação sobre a época em que Nat King Cole esteve no Brasil, eu mesmo já tendo me referido àquela ocasião com alguns detalhes. Muito se disse sobre o que aconteceu, mas nem toda estas informações são verificáveis, porque muita gente dessa época não existe mais.
Uma dessas publicações que se encontra na Internet foi a da gravação do disco A Meus Amigos, no estúdio da Odeon do Rio de Janeiro. Nos créditos hoje divulgados aparecem:
Sylvia Telles- vocais, Trio Irakitan – acompanhamento vocal, John Collins – guitarra, Charles P. Harris – baixo e Lee Young – bateria. Os arranjos e regência ficaram a cargo de Dave Cavanaugh e a produção de Lee Gillette.
Segundo relatos, as sessões de gravação foram mantidas sob sigilo, ninguém podia entrar que não fosse do estafe da gravadora. Além disso, o engenheiro de gravação americano que lá esteve condenou o uso de microfones locais para a captura vocal do cantor, tendo levado para os Estados Unidos apenas a parte orquestral gravada, que depois seria editada e lançada no disco A Mis Amigos.
Mas, não existem créditos de parte técnica dessas sessões que pudessem ser achados, certamente nem mesmo na contracapa do disco, lá ou aqui. Portanto, oficialmente ninguém sabe quem foi o tal engenheiro de gravação até hoje.
Aparentemente, Val Valentin estava lá, mas se interferiu ou não como descrito ninguém sabe. O que me soa estranho foi o fato de que Nat havia entrado em um estúdio novo e moderno para aquela época, a gravação foi estereofônica, mantida na versão americana. Então, seria cabível perguntar se de fato Nat deixou para gravar o vocal na América. Se ele fez isso, então o que ele estava fazendo lá?
Arranjos de Dave Cavanaugh? O som da orquestra mostra arranjos típicos de maestros brasileiros, basta ouvir Não Tenho Lágrimas, que é samba puro.
Muitos músicos e vocalistas americanos se envolveram com a Bossa Nova. Em 1959 é possível que Nat King Cole ainda não tivesse tomado conhecimento daquele novo gênero de música ou contato com músicos loais. Até onde eu sei, foi em L-O-V-E, seu último disco, que ele interpretou Garota de Ipanema, de um jeito adaptado, e anos depois do movimento bossanovista ter chegado por lá. Também de 1964, no disco Nat King Cole Sings My Fair Lady aparecem arranjos com batida de Bossa Nova, notadamente na música On The Street Where You Live. Aliás, o disco todo tem mudanças radicais no andamento das músicas originais da peça.
Então não se pode afirmar categoricamente que Nat King Cole esteve próximo de músicos ou compositores da Bossa Nova naquela época. O seu repertório na Odeon escolheu músicas latinas e samba canção, nada de Bossa Nova.
A não ser que a Capitol tivesse a clara intenção de lançar um disco para toda a América Latina, não seria compreensível que Nat se aventurasse com músicas que não fossem brasileiras. Na edição americana, foi ainda pior: Ninguém Me Ama virou “Nadie Me Ama”, cantada, é claro, em espanhol…
A única coisa que me parece certa do que ocorreu no estúdio da Odeon é que a orquestra era de músicos brasileiros e ainda hoje acho pouco provável que o baterista Lee Young estivesse tocando nas faixas onde aparecem as nossas músicas.
Nat King Cole era fumante contumaz. Sua voz rouca lhe ajudou muito na interpretação vocal de arranjos populares e de Jazz, gênero este que a voz rouca de Louis Armstrong cunhou este tipo de vocalização. Lá em casa, marcou o som da alta fidelidade naquela época.
Infelizmente, como todo tabagista, pagou caro por isso, morrendo jovem, vítima de um câncer de pulmão letal, que na época não tinha cura. Os Estados Unidos tinham uma fortíssima indústria de tabaco, foi muito difícil combatê-la e os males que ela causou. [Webinsider]
. . .
Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.








