A música gravada através dos tempos mostra avanços e períodos de não aceitação do material gravado, mas com fidelidade nunca antes imaginada pelos precursores.
Quando Emile Berliner inventou o disco plano para gravação de som, o projeto foi patenteado, mas carecia de aprimoramentos, um deles o da velocidade constante de rotação do disco. Logo a seguir, ele fez uma parceria com o mecânico Eldridge R. Johnson, que havia desenvolvido um motor a corda, o qual eliminou a rotação do disco por manivela.
Eldridge comprou a patente de Berliner e fundou a Victor Talking Machine Company, em 1901. O nome Victor provavelmente se refere ao termo latino Victoria, em função das batalhas judiciais da época que foram vencidas. Seus toca-discos levaram o nome de Victrola, que ficou anos na memória de todo mundo.
O fato é que o seu principal concorrente era o cilindro de Edison, pessoa truculenta que teria feito de tudo para estabelecer o cilindro como o melhor meio de gravação. Edison esbarrou em um problema técnico, que deu a vitória ao gramofone de Berliner: a dificuldade de duplicar o cilindro, para fins comerciais.
O número de discos fonográficos gravados, com diversos formatos, foi imenso. Recentemente, o canal do YouTube Record-ology entrevistou o empresário e colecionador de gravações fonográficas raras Kurt Nauck, dedicado ao assunto.
Muita coisa mostrada naquele vídeo não me causou surpresa. Eu mesmo, quando menino, recebi uma gravação de voz da minha tia, que estava sempre em viagem, feita em um disco de plástico flexível, enviado pelo correio. Infelizmente, uma sobrinha dessa minha tia pediu o disco emprestado e não devolveu mais, apesar dos meus protestos…
Gravações em disco foram muito usadas nas transmissões de rádio, mesmo depois da fita magnética ser inventada. Segundo um antigo conhecido meu, muita coisa gravada foi abandonada em um transmissor da Rádio Nacional, depois recuperada em parte por terceiros. Os dois discos de Renato Murce sobre a PRK-30, por exemplo, foram cópias dos discos gravados do programa onde a dupla da PRK-30 se apresentava.
Dos discos de 10 polegadas ao Long Playing
A distribuição e venda de música alcançou um momento importante, quando as gravadoras abandonaram a gravação acústica, com aquelas cornetas, e partiram para o processo elétrico, diminuindo a distorção de captura. Na etiqueta desses discos aparecia a mensagem “Gravação Elétrica”.
Os discos de dez polegadas em 78 rpm foram depois aperfeiçoados mais ainda com o advento da alta fidelidade, e novamente a informação “Alta Fidelidade” vinha impressa no selo do disco.
Mesmo com o aumento da fidelidade de reprodução alcançada, os discos de 78 rpm eram particularmente barulhentos, um chiado que acompanhava a música. A vitrola lá de casa tinha um seletor especificamente desenhado para discos 78 rpm, na realidade um filtro de alta frequência, provavelmente do tipo passa-baixo.
Mas, tudo mudou com a chegada do disco de plástico “inquebrável” e com o desenvolvimento do microssulco. A mudança foi principalmente ao nível da reprodução, quando agulhas e cápsulas foram igualmente aperfeiçoadas. Entretanto, discos com gravações fonográficas de estúdio precárias continuavam a soar mal, e só melhoraram de fato quando os estúdios remodelaram seus equipamentos de gravação.
Na época do rock-and-roll da década de 1950 esta diferença se mostrava bastante evidente, porque muitos estúdios vendiam discos de grupos desconhecidos, mas gravados de forma artesanal e amadora.
Os discos quadrafônicos que não deram certo
O disco elepê quadrafônico prometia ser uma revolução e tanto na reprodução do conteúdo musical, e várias gravadoras remixaram as suas matrizes gravadas em fitas de múltiplos canais, para depois cortar os novos acetatos.
Poderia ter dado super certo, mas a reprodução do som quadrafônico esbarrou em uma série de problemas e empecilhos. Um deles foi o da falta de um padrão de matriz quadrafônica, que permitisse o uso de apenas um único decodificador.
Os formatos usados foram: o SQ (Stereo Quadraphonic), desenvolvido nos laboratórios da CBS, o QS (Quadraphonic Stereo), desenvolvido pela Sansui, e o CD-4 (Compatible Discrete 4), desenvolvido em parceria pela JVC e RCA.
O primeiro formato a se espalhar foi o SQ, baseado em uma matriz matemática, que movia a fase para liberar os canais surround esquerdo e direito. Aliás, essa matriz foi depois modificada para que a Dolby desenvolvesse o Dolby Stereo para o cinema.
Haviam limitações de reprodução audíveis no formato SQ, e isso levou à codificação do QS, com uma matriz recalculada.
Já o formato CD-4 usou subportadoras, com os quatro canais separados (ou discretos), mas o formato exigia agulhas especiais, o que lhe desfavoreceu em termos do consumidor final.
A guerra de formatos contribuiu para o eventual abandono da reprodução do som quadrafônico com elepês, mas na minha visão a passagem do mono para o som estereofônico convencional ainda prevaleceu para o comprador de discos, porque ele ou ela não precisavam de decodificadores e de caixas surround no ambiente para ouvir música.
Diga-se de passagem, a instalação de caixas acústicas em maior número no ambiente doméstico enfrentou problemas diversos, um deles, o mais ridículo foi a da objeção familiar. Os americanos criaram a expressão “Wife Acceptance Factor” ou “WAF”, para classificar quais equipamentos eram aceitáveis ou não em casa!
É possível também que a separação aumentada de canais resultasse em uma mixagem inconvincente para o apreciador de música. Eu me lembro de discussões no último fórum que eu frequentei, onde alguns tinham forte repúdio ao som de instrumentos reproduzidos isolados nos canais surround. O mesmo raciocínio se aplicou às gravações remixadas em 5.1 canais.
De tempos para cá, gravações quadrafônicas tem estado disponíveis em formato discreto, a maioria em SACD ou DVD-Audio. A eliminação das matrizes e subportadoras permite ouvir como aquelas gravações foram planejadas. E aí então ter uma ideia concreta se o som quadrafônico foi um avanço ou um desastre que não mereceu ir para a frente.
O som multicanal em 5.1
As mixagens de matrizes de estúdio não ficaram restritas ao som quadrafônico. Até hoje, gravações são lançadas em layout de 5.1 canais. No passado distante, os grupos de rock progressivo experimentaram diversos tipos de formatos e mixagens em suas gravações.
Um grupo que abusou de experimentar foi o Pink Floyd, mas não foi o único. O disco Dark Side Of The Moon foi um dos primeiros discos a ser mixado para DSD 5.1 e lançado em SACD, bem no início deste formato.
Outro experimentador foi Mike Oldfield, que gravou o icônico Tubular Bells, lançado na década de 1970. Foi feita uma versão quadrafônica, lançada em SACD, e em 2003 foi feita uma regravação para 5.1 canais, lançada em DVD-Audio. Eu me lembro de muitos dos seus fãs não ter gostado desta versão, mas na verdade ela foi uma recriação do original, e não a repetição da antiga gravação, que foi feita em 1973.
Tubular Bells foi lançado aqui como “trilha sonora do filme O Exorcista”, coisa que ele nunca foi. Eu tive a versão em elepê prensada aqui, e muito tempo depois o SACD com os 4 canais, com algumas poucas diferenças. De todas elas, eu ainda prefiro a gravação de 2003, e não me importo com os efeitos sonoplásticos do surround. Mas, isto sou eu, já os fãs…
Falar em DVD-Audio e SACD nestes últimos anos é perder tempo, porque, infelizmente ambos os formatos se tornaram desfavorecidos pelas gravadoras. Entretanto, música em 5.1 existe com o rótulo de Pure Audio, em discos Blu-Ray com trilha Dolby Atmos. Eu duvido que seja popular, porque o consumo de massa se virou para o som dos streamings. Aparentemente, Amazon Music, Tidal e outras oferecem Dolby Atmos, mas eu não vou assinar para ver. Eu tenho direito ao Amazon Music, e até me ofereceram o serviço Unlimited por tempo limitado, que tem esta opção de reprodução, mas eu não aderi.
É bem provável que música em múltiplos canais em mídia ótica ou streaming, quando for o caso, nunca vai morrer, talvez restrita a um nicho, daqueles que gostam de áudio, além da música gravada. [Webinsider]
. . .
Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.










2 respostas
Pois é Paulo.
O problema todo atualmente está nesse novo modelo comercial de armazenamento/comercialização…
Os estúdios e/ou gravadoras incutiram na cabeça de artistas/músicos jovens, que mídias físicas não terão uma maior penetraçâo das vendas da obra gravada.
A ideia é fazer toda gravação, edição e manter o material bruto em nuvem.
E é lógico que diante do tamanho desse arquivo gigantesco de masterização o termo qualidade “vai pro vinagre”
Como transferir e vender o arquivo finalizado em plataformas e aplicativos de músicas?
Essas obras terão que ser comprimidas, e não precisa explicar o resultado disso.
Para ser polido eu diria que música nos dias atuais só serve como uma referência daquilo que era realizado no passado, com obras que tinham um custo de gravação e duplicação superior, mas a qualidade sonora da obra gravada não tinha comparação.
Iremos levar em nossas mentes e nas nossas coleções o melhor que foi vendido em lojas, e nossos netos e bisnetos acabarão descartando todo esse registro histórico, que irá morrer nas próximas décadas
Um abraço
É, Rogério, eu sempre tenho a sensação de que a minha coleção de discos não vai sobreviver depois que eu passar desta para melhor. É duro, mas fazer o quê? Foram anos correndo atrás de discos, e sempre tendo que aturar áudio comprimido depois de digitalizado, por falta de opção.
O meu filho me colocou em uma conta Premium de Família no Spotify, que andou prometendo áudio de alta resolução. Mas, cadê? Então, a minha coleção de discos continua indispensável.