Se você usa IA para escrever tudo que produz ou publica, o emburrecimento é o menor dos riscos. Você está dando demonstrações de que é substituível e descartável.
Excetuando-se os inocentes, os desavisados, os caídos do trem e os extraterrestres, todo mundo já sabe para que serve a inteligência artificial que escreve textos.
O tempo de se espantar com sua capacidade de escrever sem erros gramaticais ou ortográficos, traduzir, transcrever, revisar, resumir, sofisticar ou simplificar sintaxes, sinonimizar, imitar estilos, já passou.
Assim como não nos gabamos mais de nos comunicarmos à distância em tempo real, assim como não cacarejamos que sabemos o significado de ontologia, deontologia, oncologia, usar um celular que faz videochamada ou que busca na Wikipedia é tão marcador socioprofissional quanto ter uma bolsa de grife, um monte de seguidores e, em breve, uma barriguinha negativa.
Se você não vive mais sem IA, parabéns, você é um terráqueo, mas isso não faz de você alguma-coisa-to-watch.
Agora, se você usa IA para escrever tudo que produz ou publica, se você regurgita sempre o que sua prótese alfabetizadora dita – com ou sem refinamento do prompt –, o emburrecimento é o menor dos riscos.
O primeiro problema é que você está dando demonstrações pornográficas de que é substituível. Você está gritando aos quatro ventos que o que escreve é um blablablá sem originalidade, filosofia de boteco, literatura de molusco, postagem de virgínias. Você está dizendo ao seu chefe, aos seus amigos, parceiros, admiradores, seguidores, prospects profissionais, sociais ou sexuais que você é descartável.
Mas o espantoso é que todo mundo está nu.
Os jornais de maior prestígio, as redes sociais dos mais ilustres influenciadores, as palestras das grandes vozes, os cases de marketing, os manifestos das marcas e empresas mais valiosas por terem sido, outrora, criativas – está todo mundo agindo como se um vulcão estivesse em erupção e vivêssemos os últimos dias de nossas vidas.
É claro que todo mundo está à beira de um burnout, estressado, pressionado, apavorado. É claro que esse mundo da performance-rolo-compressor está nos levando à beira do precipício e que qualquer muleta é um refresco.
Mas essa não é uma muleta qualquer. Essa muleta lobotomiza. Nossas capacidades cerebrais, como já provado, mas também a própria capacidade da muleta de produzir. É simples entender: se as IAs utilizam toda a produção de conteúdo disponível para fornecer a maior probabilidade de atender ao prompt do usuário e se a maioria dos conteúdos disponíveis já tiver sido produzida por outras inteligências artificiais, a tendência é de mediocrização universal. É óbvio e matemático: estamos lobotomizando a produção de conteúdo da humanidade.
Então, o que fazer? Como usar a muleta e sair bailando?
Não é simples resistir a uma barra de chocolate com marzipã e comer uma única batata frita.
Mas talvez haja um jeito de dar a volta por cima. Por que não começar fazendo o que sempre fizemos, usando o cérebro primeiro e a máquina depois? Por que não usar as IAs para fixar a média que queremos ultrapassar? Por que não olhar para a média como uma catapulta para melhorar?
O estudo do MIT Media Lab publicado em junho dá uma pista de como fazer.
Dando uma de ChatGPT para resumir, o que o estudo demonstra é que a utilização dessa ferramenta de IA para a produção de um conteúdo textual utiliza muito menos atividade cerebral (medida com eletroencefalografia) do que o uso de ferramenta de pesquisa tradicional na internet e menos ainda do que o simples recurso intelectual. Mas o estudo dá uma pista bem interessante de como usar as inevitáveis ferramentas de IA. Quando os pesquisadores inverteram a ordem dos grupos e pediram àqueles que tinham usado a IA para escrever sem esse recurso e a quem não tinha usado IA para usar, o resultado produzido desse segundo grupo era muito melhor.
Esse tipo de experimento já tinha sido feito por exemplo com a escrita à mão versus a escrita por computador. O resultado é o mesmo: quem escreve à mão tende a escrever melhor porque o processo físico provoca mais estímulo cerebral.
Mas é tarde para remar contra a maré. Que tal testar o experimento do MIT?
Da próxima vez que você tiver que escrever um texto que tal começar com seu próprio músculo? Que tal escrever e reescrever bastante. Pra testar. Sem pressão. Escreve e reescreve algum tempo antes de jogar a toalha na inteligência artificial.
Porque como se sabe, a inteligência é um músculo: atrofia por falta de uso. [Webinsider]
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