A Noviça Rebelde, um dos filmes que mais agradaram o público, no passado e ainda atrai milhares de fãs, tem versão meticulosa em 4K, com imagem Dolby Vision e som Dolby Atmos, uma restauração feita nos laboratórios da Disney.
Com o relançamento este ano em versão 4K do filme The Sound Of Music, lançado nos cinemas em 1965, a Disney, agora detentora dos direitos de lançamento dos filmes da Fox, voltou aos negativos de câmera, e procedeu a uma nova digitalização, com 8 K de resolução.
A restauração já tinha sido feita antes, mas a nova transcrição feita pelos técnicos da Disney usou os últimos recursos de tratamento e conversão para vídeo, capazes de corrigir até pequenas oscilações dos movimentos das câmeras, que foi o que eles alegam ter feito. O trabalho de recuperação durou cerca de 10 meses, e vê-se agora que o resultado obtido compensou amplamente, mais uma vez preservando este filme. A imagem no disco ainda recebeu um justo tratamento em HDR, com Dolby Vision.
A trilha sonora, originalmente mixada para o formato Todd-AO de 70 mm, foi também restaurada e remixada para reprodução em Dolby Atmos. Todos os diálogos direcionais foram respeitados.
Quem assistiu o filme em CinemaScope, em 1965 e depois em Cinerama, tem todos os motivos para elogiar esta nova edição em vídeo. Tanto assim, que na América o filme foi relançado nos cinemas, incluindo as respectivas festividades, com os atores que ainda estão vivos.
O trabalho fotográfico deste filme ficou a cargo do diretor de fotografia Ted McCord, usando lentes com alta profundidade de foco, realçando o ambiente e os cenários em campo do filme.
As tomadas panorâmicas se distinguem até hoje, mesmo nas limitações de área das telas de TV. Para tomadas com helicóptero, a equipe usou câmeras MCS-70, mais compactas e adequadas pelo seu tamanho e design.
A iluminação de todas as tomadas foi extremamente cuidadosa. Segundo o que foi relatado, o tempo em locação era chuvoso e complicado para o trabalho fotográfico. Holofotes poderosos foram usados em todas as cenas, e as zonas de sombra, todas muito criativas, somente empregadas nas cenas pertinentes.
Intrigas e fofocas, após 60 anos
É irritante ver agora que um monte de YouTubers que montaram vídeos, não para falar bem do filme, mas para divulgar percalços nas filmagens, envolvendo atores, produção, etc. A coisa chega às raias da maldade: um narrador desses chega a dizer que depois de mostrar o que aconteceu de errado, quem gosta do filme pode pensar duas vezes e não apreciá-lo da mesma maneira. Notem até que ponto de sordidez essas pessoas chegam para vender seus vídeos no YouTube!
A filmagem levou cerca de ano para terminar, algumas cenas no estúdio e o resto em locação. É óbvio e conhecido que uma mega produção deste tipo, fora do conforto do estúdio, vai ser assolada por uma miríade de problemas. Porém, que importa agora saber que o filme foi considerado “açucarado” ou “piegas”, ou espelhando uma relação emocional supostamente fantasiosa, tipo “contos de fada”, entre Maria e o capitão von Trapp. Em 1965, aqui no Brasil, um crítico jornalista rotulou Christopher Plummer de “canastrão”!
Se as críticas detratoras ainda são feitas, resta saber porque motivo, depois de 60 anos de vida, The Sound of Music ainda atrai tantos fãs e colecionadores capazes de correr para comprar mais uma nova edição em vídeo, o que vem acontecendo desde que a edição em 4K foi lançada.
O discurso contraditório às críticas e às maldades dos críticos
Quem não conhece cinema e nem como os roteiros e adaptações de livros ou peças de teatro em filmes são dirigidos para as plateias, nunca irá entender por que a estória original da família Trapp foi modificada.
Aos cineastas, o que mais importa são as mensagens do roteiro, diretas ou subjacentes, neste caso a importância da música na educação dentro de casa, e na vida das pessoas.
Sound of Music mostra uma Maria criativa, capaz de vencer qualquer barreira e assim o fazendo, mostrar aos seus interlocutores que todo mundo tem capacidade de evoluir e se aperfeiçoar como seres humanos.
Agora seus detratores falam que a Maria da vida real esteve no set de filmagem, e teria achado que Julie Andrews a interpretou de forma errada. Se ela de fato reclamou, estava errada, porque Andrews, com o talento que lhe é peculiar, criou uma personagem capaz de se encaixar perfeitamente no roteiro do filme e convencer quem assiste que Maria é uma mulher capaz de pular qualquer barreira e alcançar com confiança o que ela almeja na vida.
A relação afetiva entre Maria e von Trapp, ao contrário de ser um conto de fadas, como dizem maldosamente os críticos, é desenvolvida no roteiro de forma perfeita: no início, os dois são antagônicos, com desafios entre eles, e discordam da maneira como os filhos devem ser tratados, mas foi no poder da música, que é o verdadeiro tema da estória toda, que os dois se conhecem, se respeitam e no final descobrem que se amam.
Maria, uma vez se sentindo emocionalmente diferente frente a von Trapp, típico da falta de experiência de uma mulher jovem, foge para o convento, mas ouve da Madre Superiora uma lição de vida sobre o amor a Deus e entre seres humanos. Na minha opinião, a letra da música Climb Every Mountain é um retrato perfeito da necessidade que todo ser humano tem que saber que é preciso enfrentar seus problemas, para escalar os árduos caminhos da vida. Aqui compartilho este trecho, deixado por um fã do filme:
Notem que nesta cena entre Maria e a Madre Superiora a iluminação enfatiza uma luz na parede, com um triângulo luminoso, que representa a unidade da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) para a Igreja Católica, e Maria está dentro dele.
Se a gente somar todas essas mensagens vai entender porque Sound of Music transcendeu ao tempo em que foi realizado e ainda tem público até hoje, entre jovens e adultos!
Justiça seja feita, o filme contou com um diretor e elencos impecáveis. Cada tomada, cada travelling de câmera, cada close com uma iluminação magistral, contribuem para o fascínio das plateias, depois de todos esses anos.
Se eu fosse acreditar no que dizem os críticos, eu teria que admitir que A Noviça Rebelde foi um fracasso que deu certo!
Este filme livrou a Fox da bancarrota, depois do prejuízo causado pela produção de Cleópatra. Disseram que alguns executivos não acreditaram no projeto e que ele gastou muito e possivelmente sem retorno financeiro. Só não esperavam que Sound of Music iria ser um dos maiores sucessos de bilheteria de todos os tempos! Afinal, compensou ou não?
As primeiras impressões sobre a nova versão
Em se tratando de uma imagem originalmente fotografada em Todd-AO, nada mais justo do que restaurar o filme com a digitalização de melhor resolução possível. Mas, o tratamento agora com Dolby Vision mostra um significativo aumento de contraste, aumento da palheta de cores e das zonas de sombra. Algumas cenas ficaram um pouco mais escuras, mas eu acredito que tenha sido esta a intenção do diretor, que viu ser feita a primeira restauração do negativo, antes de falecer.
É difícil para mim lembrar com exatidão a qualidade da imagem da cópia em CinemaScope que eu assisti na década de 1960, então eu me arrisco a dizer que a imagem 4K está mais próxima de um filme moderno do que daquela época. E como o filme todo tem qualidade fotográfica em abundância, eu sou um que não poderia me queixar da mudança!
Eu fiquei curioso com o tratamento da trilha sonora agora mixada em Dolby Atmos, porque o Todd-AO foi projetado para telas ultra largas, com 5 canais de áudio na tela e apenas um canal surround mono, raramente usado.
Outro aspecto que me interessou saber foi a qualidade do som nesta trilha. Eu tive o filme em LaserDisc estéreo PCM, de alta qualidade, que não se repetiu nas versões subsequentes, particularmente nos trechos com música.
Neste caso, o tratamento com Atmos chega a ser conservador, quer dizer, ninguém inventou efeitos 3D mirabolantes para “embelezar” a trilha. Em contrapartida, as músicas soam muito bem, com boa dinâmica, e com orquestração bem mais detalhada do que nas versões anteriores. Pode não ter o brilho do LaserDisc, mas a trilha é sonoramente muito bem equilibrada e agradável de ouvir!
Infelizmente, o disco que recebi veio com defeito em duas cenas, que congelaram por alguns segundos: uma foi a cena da corrida de bicicletas e a outra, quase no fim, quando von Trapp se defronta com Rolfe, antes de escapar do convento. Além disso, o estojo veio com a trava de baixo quebrada. Eu também não gostei dos pinos do estojo, mais altos para acomodar um disco em cima do outro.
Eu vi na Internet um monte de usuários se queixando de discos arranhados e imagens congeladas, desde o lançamento da nova edição. Eu fiz uma varredura na minha cópia, que não veio arranhada, e nada de anormal na mídia foi detectado.
Em contato com a Amazon do Brasil, e sabendo que não seria possível pedir para trocar, por se tratar de produto importado, o seu representante me ofereceu um reembolso, que eu aceitei.
Este é um dos filmes mais importantes da minha coleção, e por isso lamentei muito os problemas de prensagem. Vou dar um tempo, e comprar uma nova cópia, porque para mim esta nova edição em 4K vale muito a pena. [Webinsider]
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Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.












4 respostas
Essa canção que você destacou é muito bonita. Maria foge da casa Von Trapp por medo e confusão, sentindo que amar o Capitão é um erro. A Madre Superiora não a deixa se esconder na fé, mas a orienta a sair para o mundo e viver seu chamado (“Climb Ev’ry Mountain”), ou seja, enfrentar o problema em vez de evitá-lo. Dentro de uma perspectiva religiosa, isso dialoga com a ideia de que a fé deve ser ativa e exige a coragem de seguir a vontade divina, mesmo quando é assustadora.
Pois é, Gustavo,
São muitas as razões para qualquer um duvidar da existência de Deus frente a dificuldades julgadas intransponíveis, e são muitas as ocasiões em que a fragilidade humana se revela diante das dificuldades mais íntimas.
Obrigado pelo comentário. Fico feliz em saber que você também gosta deste trecho do filme, a sua análise é perfeita!
Pois é Paulo…
Ontem lí no jornal Folha de São Paulo que o Papa Leão XIV citou o filme Noviça Rebelde como um dos 4 melhores filmes já vistos por ele.
Foi a época de ouro dos grandes Blockbusters de Hollywood, e hoje temos que selecionar com uma pinça algo que preste.
Um abraço
Oi, Rogério,
Não só isso, mas com a derrocada dos palácios de cinema, o público jovem nunca pode experimentar o que é uma projeção em 70 mm ou Cinerama, e compartilhar suas emoções com o resto da plateia. Abraços,