Blue Moon, filme apresentado este ano no Festival de Berlim, traça os últimos momentos do letrista Lorenz Hart, e tenta explicar o seu sentimento de constante depressão e alcoolismo.
Blue Moon foi o título dado a uma música dos lendários compositores Richard Rodgers e Lorenz Hart, e que foi muito popular durante anos a fio. Chegou até a ser gravada de forma exótica pelo grupo de rock The Marcels, sem contar as inúmeras interpretações, inclusive a de conjuntos cantores de Jazz.
Mas, o filme, apresentado no último Festival de Berlim, realizado este ano, traça os últimos momentos de Lorenz Hart, que morreu prematuramente, aos 48 anos.
Hart foi o letrista das músicas do compositor Richard Rodgers durante algum tempo, produzindo ícones da música popular americana, além de peças de teatro, depois transplantadas para o cinema.
A M-G-M chegou a fazer um filme biográfico sobre s dupla Rodgers e Hart, com o título Palavras e Música, de 1948, mas com um roteiro fictício. Mas o filme atual centra a sua atenção a Lorenz Hart, em seus últimos momentos, ao mesmo tempo tentando explicar a sua decadência.
Em 1943, depois de muitas brigas com Richard Rodgers, este o trocou pelo letrista Oscar Hammerstein II, com quem escreveu peças memoráveis, como Sound Of Music, por exemplo.
O filme atual começa nos momentos que antecederam a morte de Hart, quando ele foi encontrado bêbado no chão próximo ao bar que frequentava. Depois volta para a sua presença e saída da peça Oklahoma!, que ele faz questão de chamar de “Oklahoma com ponto de exclamação” várias vezes durante a cena. Fica claro que ele abominou a peça, mas não deixa de elogiar a dupla Rodgers e Hammerstein, que a criou.
Declínio e morte
Richard Rodgers e Lorenz Hart eram ambos filhos de emigrantes judeus, que chegaram da Europa e moravam em Nova Iorque. Muitos dos compositores populares e teatrólogos de sucesso norte-americanos tiveram esta mesma origem, e curiosamente escreveram músicas com conteúdo cristão, como, por exemplo, Irving Berlin, que compôs White Christmas.
Hart tinha uma vida complicada, e se tornou alcoólatra crônico. Era vítima de constante depressão e vivia brigando ou se envolvendo com discussões com pessoas próximas. Após muitas brigas com seu amigo de infância Richard Rogers, este resolveu dissolver a dupla, se associando a Oscar Hammerstein, com quem escreveu peças que ficaram na história do teatro e do cinema. Depois, Rodgers ainda fez algum trabalho com Hart, mas que durou pouco. Aparentemente, ambos se admiravam, embora tenham tido uma relação interpessoal tumultuada,
Blue Moon é, a meu ver, uma música com letra depressiva. Basta o início para se constatar isso. A palavra “Blue” certamente não se refere à cor da lua, mas ao sentimento de tristeza. Logo no início ela diz “Lua triste, você me vê sozinho, sem um sonho no meu coração, sem um amor meu”.
Quanto ao filme, o ritmo parece ter sido propositalmente lento, com abundância de diálogos, algumas vezes chegando a ser monótono e arrastado. Embora os autores tentem explicar a genialidade de Hart como letrista e os motivos para a sua postura depressiva e invejosa contra Hammerstein, fica difícil a quem assiste entender a complexidade das causas que levaram o letrista ao declínio mental e ao consequente alcoolismo. Aliás, no meu entendimento costuma ser virtualmente impossível entender a alma criadora dos artistas, e é por esta razão mesmo que vários deles, quando entrevistados, mudam de assunto!
De qualquer forma, Blue Moon é interessante de se ver e pode facilmente ser apreciado por qualquer cinéfilo que goste de música e queira conhecer melhor Lorenz Hart. [Webinsider]
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Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.









