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Adágios populares criados pelos antigos sabiam o que estavam dizendo. Sobre restaurar LPs, muitos deles trazem uma lição de vida.

 

Durante a minha vida toda, com a educação que eu dei sorte de receber dos meus pais e depois com a vivência profissional, o antigo ditado popular, que sugere às pessoas superar e avançar, nunca foi tão verdadeiro. Citado na música, em prosas e versos de outra natureza, este adágio é um dos conselhos mais importantes que alguém pode receber. Se ele ou ela vão segui-lo a decisão será sempre baseada no bom senso de cada um.

Infelizmente, bom senso é um daqueles requisitos que faltam a muita gente. Ele deveria ser fruto ou resultado de experiências erradas, ou mal sucedidas, que levam a lições de vida que a gente precisa aprender.

Um dos meus orientadores de trabalho científico havia me dado um método de dosagem cuja receita me deu problemas. Eu consultei um especialista da área, que não conseguiu resolver o erro do método. Diante disso, o meu orientador, analisando o empecilho, me disse “vamos adiante”, quer dizer, não perca o seu tempo para tentar achar uma solução, porque não vale a pena. A rotina de quem se defronta com uma experimentação que não deu certo é procurar uma resposta e uma solução, mas é possível ter que gastar um tempo enorme, e em muitos casos, como premência de resultados ou pouca verba do projeto, em determinadas circunstâncias, não vale a pena insistir em uma solução.

Por outro lado, é importante que lições devem ser aprendidas, como é o caso das evoluções da tecnologia, que levam a aprimoramentos ou pequenas revoluções evolutivas.

Neste ponto, o áudio é um dos exemplos mais gritantes: começou com a gravação em cima de um cilindro e de um disco, com sulcos primitivos e cheios de distorção; As agulhas foram evoluindo e os sulcos também, mas nunca ao ponto de uma solução definitiva. Idem para o registro magnético: as primeiras gravações foram feitas em fio, depois a fita magnética foi inventada, primeiro em papel, depois em plástico, chegando a um ponto de excelência de resultados, mas apesar dos avanços, ainda sobraram erros de captura do áudio, o suficiente para justificar a introdução do som digital.

No cinema, os métodos de gravação das trilhas sonoras levaram o som  para o disco (Vitaphone) e para a película com uma banda ótica, que saiu vencedora. Mas ainda assim com uma tonelada de percalços, cuja solução só viria décadas depois. Não só isso, mas também foi necessário arrumar uma solução para o aumento da largura das telas, que acabou sendo a adoção do som estereofônico nos filmes.

Notem que a cada passo para um novo formato de áudio, seus proponentes o propuseram como “o som do futuro”. Quando o Dolby Digital foi lançado em videodiscos, o trailer “City” foi reproduzido antes dos filmes, e ele é anunciado como tal, na marquise de um cinema:

 

O tempo, entretanto, anos depois, mostrou que isso acabou não acontecendo. A própria Dolby lançou o Dolby Digital Surround EX, com 6.1 canais, e o Dolby Digital Plus, com 7.1 canais e com Atmos embarcado.

Solução idêntica à do cinema foi adotada pela indústria fonográfica, saindo do mono para o estéreo, em fitas magnéticas e discos. Mais recentemente, com a expansão de canais de gravação, os estúdios partiram para as mixagens com até 5.1 canais, dispostas no SACD e no DVD-Audio. No Blu-Ray tipo “pure audio” o Dolby Atmos foi introduzido.

A reticência na evolução e os reflexos no aprendizado

Durante décadas, eu fui testemunha da reação de muitas pessoas ao se deparar com alguma coisa que ele ou ela não conheciam. E até hoje, eu vejo vídeos no YouTube com obcecados em restaurar qualquer coisa abandonada, pouco importa o valor intrínseco daquele objeto. Dispositivos são desmontados em caquinhos, limpos e depois remontados, voltando a funcionar como antes. E para quê?

Salvo melhor juízo, a meu ver é questionável este tipo de restauração, a não ser que alguém se proponha a usar a restauração para tentar explicar como o dispositivo a ser restaurado funcionava. Fora isso, eu me atrevo a dizer que a restauração não serve para mais nada!

Se um aparelho, que ainda era útil para alguém, foi jogado no lixo e lá abandonado, deve ter havido um motivo concreto para que isso fosse feito, em última análise que o que foi jogado fora não valia mais a pena consertar e/ou que ele tinha se tornado obsoleto.

A diferença entre preservação e restauração sem este sentido

A existência de museus de qualquer assunto é primordial para educar as pessoas, principalmente em assuntos que envolvem o histórico de uma dada tecnologia. Aí sim, é perfeitamente compreensível e necessário o ato de preservar qualquer coisa.

Eu estou no grupo daqueles que fizeram esforço para a criação de um museu de cinema na cidade do Rio de Janeiro, mas sem sucesso. Nenhum museu é demais, quando se trata da preservação da memória de algo que desapareceu, como os cinemas de rua, que fizeram parte das nossas vidas, durante décadas a fio.

Se a restauração é apenas a necessidade de uma exibição de vaidade por parte de quem restaura, típico de muitos vídeos no YouTube, ela perde o seu valor histórico ou didático, até porque a oferta no mercado de produtos novos e muto mais aperfeiçoados exclui o interesse da maioria dos consumidores em objetos restaurados. A exceção, neste caso, fica por conta dos colecionadores, com os quais eu me solidarizo totalmente.

Quem quiser que fique para trás

Todas as pessoas tem o direito irrevogável de escolher o que é melhor para si. Quando alguém se dirigia a mim, dizendo que prefere o som do vinil ao digital, eu respondia que cada um sabe de si, quando o assunto é preferência.

No ano de 2023, a JBL lançou o toca-discos Spinner. Se alguém está disposto a desembolar cerca de 4 mil reais por ele, aproveite! Ironicamente, o toca-discos vem com uma conexão Bluetooth com chip Qualcomm para 5.2 canais. Quer dizer, em vez de fones de ouvidos daqueles antigos, use um moderno dispositivo para este tipo de conexão, por acaso fabricado pela JBL…

No passado distante foram vários os desenvolvedores de sistemas antirruído para se ouvir elepês, como dbx ou CX, mas eles exigiam decodificadores e eram ineficientes. O CX foi usado em videodiscos com um aproveitamento superior ao dos elepês.

Na mesma época lançou-se um dispositivo para filtrar os ruídos de impulso, o conhecido estalido do vinil. Eu vi um funcionando na antiga loja do Veiga. Era preciso ajustar o nível de corte, caso contrário o sistema distorcia o som do disco, em outras palavras, completamente inútil.

Quando eu comecei a aprender a restaurar os meus antigos elepês, eu aprendi o que era rotulado como ruído de impulso e como era complicado para ser eliminado, mesmo em ambiente digital. Basicamente, o filtro corretor fazia uma análise do sinal de áudio próximo ao ruído, e estimava estatisticamente como deveria ser o formato da onda sem o ruído. Em muitos casos, foi preciso expandir (dar um zoom) na área do ruído, de modo a isolá-lo, antes de aplicar o filtro. O melhor corretor que eu usei foi o ClickFix, cuja última versão fez milagres em um disco antigo todo roto, que eu queria preservar:

Desnecessário dizer que a insistência daquele discurso de que o som do vinil é mais quente não me convence há décadas. Eu cansei de ver audiófilos discutindo acaloradamente sobre cápsulas e agulhas, alguns exibindo modelos japoneses caríssimos! Mas, a mídia e suas imperfeições físicas continuavam lá. Fazendo uma digitalização da onda é fácil saber por quê. Agora, se quem ama vinil não se importa com as suas imperfeições, que seja feliz com ele! [Webinsider]

 

. . .

 

O som estereofônico

 

Avatar de Paulo Roberto Elias

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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