Modos de pesquisa e os dados ao alcance dos usuários

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A pesquisa de qualquer assunto é importante para quem estuda e escreve. Hoje as bibliotecas físicas acabaram substituídas pelos bancos de dados da Internet.

 

Segundo os meus registros, foi que em final de 2022 eu havia completado uma pequena lista de discos de bossa nova para um projeto da UMG, que intencionava relançar esses discos por aqui. A UMG havia absorvido todo o catálogo da Polygram, incluindo as gravadoras e selos ao seu dispor. Aquela lista não era ruim, mas aos olhos de hoje longe de ser mais abrangente. Eu cheguei a elencar cerca de uns 80 títulos, mas muita coisa ainda ficou de fora, por total desconhecimento da minha parte.

Naquela época eu ainda não conhecia o Discogs, cujo site havia iniciado um banco de dados sobre gravações, que foi evoluindo com o passar dos anos. Mesmo assim, eu teria que fazer uma pesquisa por nomes de músicos e compositores, e inevitavelmente coletar dados de um número maior de gravadoras que ainda não pertenciam à UMG. Isso inclui selos dedicados a gravações de Jazz.

Claro que tivesse eu os recursos que eu tenho hoje provavelmente teria feito uma lista de discos bem melhor, mas não posso me queixar. De qualquer forma, o executivo da UMG que me pediu a lista saiu de lá e o projeto, que aliás nunca me rendeu qualquer percepção financeira, foi abandonado,

Formas de fazer pesquisa

Logo que comecei a fazer pesquisa, o meu chefe e futuro orientador me chama para ir com ele na biblioteca central do Centro de Ciências da Saúde da UFRJ. Lá ele me mostrou os livros do Index Medicus, Eram 12 enormes volumes que continham assuntos de biomedicina, cada um deles cobrindo um mês de publicações da área. N.B.: hoje em dia, este imenso banco de dados faz parte da Organização Mundial de Saúde.

Eu fui orientado não só a fazer este tipo de pesquisa bibliográfica, mas também aprender a fazer um cotejo de todas as publicações que cobriam o assunto estudado, e compará-las ponto a ponto. Desta maneira, eu descobri que os autores têm pontos de vista muito diferentes sobre um mesmo assunto, mas, com muita leitura e cuidado, pode-se chegar a conclusões importantes e compará-las com os resultados obtidos no laboratório.

Esta foi uma etapa muito importante da minha vida, não só profissional, mas como ser humano também. Lições foram aprendidas, que me provaram que não existe cultura inútil, e que os grandes pensadores estão constantemente lendo o que é publicado e com isso amadurecendo os seus pontos de vista.

O pesado e desconfortável processo de pesquisa dos volumes do Index Medicus deu lugar ao CD-ROM, no início da década de 1990, e eu dei sorte em acompanhar esta importante mudança. Na biblioteca médica da UWCC (hoje Cardiff University) bastava pedir à bibliotecária o CD do ano que se queria pesquisar, leva-lo a um computador lá dentro mesmo, e imprimir os resultados. Na volta ao Brasil, eu vi que na biblioteca do Hospital Universitário os CDs do Index Medicus já estavam disponíveis, porém sob pagamento de uma taxa por ano consultado, até mesmo cobrada aos professores da casa!

Na época, eu conversei com o então diretor do hospital, e o convenci a criar uma rede local. O hospital já tinha um servidor, parece que doado pela IBM, então foi só cabear tudo. Por cortesia, o nosso laboratório, que ficava no subsolo, foi o primeiro a receber um ponto de rede, e o acesso à Internet.

Com este acesso, nós recebemos uma autorização de pesquisa acadêmica online do Index Medicus, que todo mundo podia usar para os seus projetos. Aproveitando o ensejo, eu dei uma palestra para colegas e estudantes que não conheciam o trabalho em rede, falando sobre os recursos online e sugerindo a todos se inscreverem no servidor do hospital, para abrir uma conta de e-mail.

O avanço conseguido foi considerável: acabou a pesquisa por ano, como era no CD-ROM, e passou a ser possível baixar o artigo interessado em pdf, imprimir e/ou salvar para futuras consultas. Antes disso, era preciso procurar o que se queria em algum arquivo de alguma biblioteca, dando sorte se esta estivesse ao alcance para se fazer uma cópia!

Com a música não foi diferente

A iniciativa de montar um grande banco de dados online, como o Discogs ou IMDb, beneficia financeiramente quem faz isso, mas dá chance a qualquer usuário de procurar dados e informações relevantes ao trabalho de pesquisa. Em outras palavras, na prática a Internet passou a ocupar o papel e os espaços das antigas bibliotecas físicas, trazendo-as para o local de trabalho.

Não só isso, mas terminou o penoso trabalho de ficar procurando referências, para tirar uma cópia e levar para casa.  Diga-se de passagem, muitas das nossas bibliotecas sempre foram arcaicas e atrasadas. Em uma das minhas últimas visitas a uma biblioteca pública, à procura de referências sobre cinemas de rua fechados e cabines, eu só fui autorizado a usar papel e lápis para anotações, nada mais do que isso. Caneta, nem pensar, cópias idem. Na Biblioteca Nacional, a cópia de um conteúdo de um microfilme era paga no Banco do Brasil, e era preciso esperar dias para a cópia ficar pronta!

Tais atrasos desestimularam o trabalho de pesquisa e até hoje afastam qualquer um das bibliotecas, que sempre foram um dos locais mais importantes da disseminação do conhecimento através dos séculos!

A “descoberta” do envolvimento de Paul Desmond com a bossa nova

O saxofonista Paul Desmond foi sinônimo da primeira e mais importante formação do Dave Brubeck Quartet, no final da década de 1950 e início de 60. Seu som inigualável e seus solos fascinaram os fás do chamado jazz moderno, com colorações nunca tentadas com aquela profundidade.

Pois Paul Desmond não foi a exceção da lista de músicos de Jazz que se deixaram influenciar pela Bossa Nova. Já no seu disco Take Ten havia indícios de que o movimento bossa-novista já havia lhe chamado a atenção. O quarteto de Brubeck tinha se aventurado na nova música com o disco Bossa Nova USA, mas de forma por vezes desajeitada, apesar de criativa.

Desmond foi mais além: em parceria com o guitarrista Jim Hall gravou “Bossa Antigua”, com notável lirismo. E mais adiante, com mais lirismo ainda, gravou o disco “From The Hot Afternoon”, com arranjos de Don Sebesky, para a A&M Records.

Uma observação mais a fundo, ao longo dos anos, revela a quantidade impressionante de músicos de Jazz que se envolveram e se dedicaram em gravar ou compor músicas com a batida da Bossa Nova. Com isso, muitos bons músicos brasileiros compartilharam desses momentos, aqui e lá fora, ironicamente ao mesmo tempo em que perderam espaço nas gravadoras brasileiras.

O interessante é que sempre me vem uma lição de moral nisso tudo: nossos músicos perderam espaço e a música de má qualidade o contrário, ocupando aquele espaço nos veículos de comunicação e nas gravadoras.

A década de 1960 foi pontuada por episódios políticos e por uma polarização que, lamentavelmente, dura até hoje. Nossos músicos daquele momento foram esquecidos. Alguns ficaram em situação financeira e de saúde muito precárias, o que é muito triste e depõe contra a memória de qualquer país que intenciona algum dia ser “civilizado”. [Webinsider]

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A influência da Bossa Nova na música popular romântica norte-americana

Pra frente é que se anda

Avatar de Paulo Roberto Elias

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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2 respostas

  1. A música de má qualidade virou mainstrean. E não só no Brasil.a geração atual não conhece repertório e, uma chegada à galeria Nova Barâo em SP revela o impensável: toneladas de LPs, entre nacionais novos, velhos recicla dos e importados caríssimos. É bem verdade que o objeto se sofisticou, com alguns encartes belíssimos e vinis até com glitter ! Mas o repertório… Coisa que revela uma inversão total e equivocada entre cultura pop e qualidade. De certa forma revela outra coisa, como editoras de livros que vendem Jane Austen ou Dostoevisk em edições de luxo para ninguém ler, apenas enfeitar ou fazer de conta que é letrado. A capa precisa estar lá, exposta na estante. Para finalizar, a bossa-nova é o Brasil no seu melhor, mas não há um único álbum moderno deste gênero no momento entre os LPs que vi.

    1. Oi, Felipe, você tem toda a razão. O antigo hábito de ir a uma loja ou livraria para comprar discos desapareceu, e não se sabe mais em que categoria os discos são separados. Eu já não sofro mais isso, porque a minha coleção praticamente chegou ao fim, com compras cada vez mais raras. Meus filhos não se interessam, e preferem ouvir streaming mesmo. Sinal dos tempos…

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