O silêncio durante a execução de uma peça clássica, principalmente, tem um significado emocional importante, que não deve ser arruinado por qualquer de ruído.
Todos os maestros sinalizam sua condução aos músicos através de gestos, e não é incomum que a maioria deles peça silêncio com as mãos fechadas, com as palmas das mãos voltadas para a orquestra, ou simplesmente colocando o dedo indicador na boca.
No entanto, tal sinalização não significa que os músicos vão parar de tocar, eles podem simplesmente tocar mais baixo, o chamado pianíssimo, que significa tocar baixo ou suavemente. Se o maestro conduzir com energia, braços abertos, gestos com as mãos subindo, a orquestra irá fazer o oposto, tocar mais alto e com mais intensidade, o chamado fortíssimo.
Os andamentos pianíssimo e fortíssimo fazem parte da dinâmica musical. No nível das salas de concerto, essa dinâmica não tem restrição. O seu objetivo principal é tornar a peça musical mais dramática, ou mais eloquente, levando a plateia a este estado emocional.
Nas gravações de orquestras sinfônicas, entretanto, é preciso respeitar as limitações da mídia utilizada, no que diz respeito à sua faixa dinâmica. Para gravações de outros tipos de música esta limitação não é preocupante, normalmente porque todos tocam no mesmo nível de volume.
Para se ter uma ideia da diferença da faixa dinâmica entre alguns tipos de orquestração, é possível medir a amplitude (volume) dos músicos tocando, com o uso de um medidor de pressão sonora. Alguns exemplos de valores típicos medidos são os seguintes:
| Orquestração | Faixa dinâmica em decibéis |
| Música clássica – orquestra sinfônica | 15 – 120 dB |
| Grupos de Jazz ou de música popular | 13 – 23 dB |
| Grupos de rock | 8 – 12 dB |
Estes valores não são absolutos, e vão variar de acordo com o ambiente onde são medidos. O importante, neste caso, é ter uma noção da dinâmica que é exigida, quando a música vai ser gravada.
Tape decks analógicos modernos, a partir principalmente da década de 1970 em diante, garantem suportar uma faixa dinâmica de 65 a 70 dB, portanto podendo ser usados para gravar música clássica.
Discos de vinil poderiam em tese dar suporte com cerca de 70 dB de dinâmica, dependo da estamparia e da qualidade do vinil prensado, porém o seu alto ruído de superfície impede uma melhor performance.
Em contrapartida, as gravações digitais superam estas barreiras, com uma faixa dinâmica acima de 90 dB e zero de ruído de fundo da mídia. Este foi um dos fortes motivos pelos quais o grupo de pesquisa da Philips decidiu redesenhar o protótipo do Compact Disc, trocando o áudio analógico pelo digital.
A gravação de áudio analógico por codificação de frequência modulada (FM) melhorou muito a relação sinal/ruído das fitas magnéticas, sendo usada nos videocassetes Hi-Fi Betamax e VHS. O mesmo formato foi usado nos videodiscos, mas com o tempo ele foi recodificado para a reprodução com um sistema de redução de ruído CX. No Laserdisc da Pioneer foi introduzido o PCM, terminando com o nível de ruído de vez. Porém, as trilhas analógicas foram mantidas, para tornar o videodisco retrocompatível. Mais tarde, um dos canais analógicos foi substituído por um sinal com Dolby Digital.
O silêncio vale ouro!
Historiadores têm dificuldade de identificar o autor da expressão que diz que o silêncio vale ouro, mas existem indícios de que ela tenha surgido por volta do fim do século 19. Também, creio eu, não se pode saber a priori a quê ela é devida, se uma sugestão de guardar um segredo, ou fazer silêncio para alguma finalidade.
O fato é que na música a diminuição da amplitude do som tocado, ou a pausa entre notas, o silêncio total ou o nível de ruído relativo do fundo se torna um fator importante na apreciação musical.
Na minha época de ouvinte de elepês eu achava desagradável e irritante ouvir estalidos fortes e súbitos (ruídos de impulso) nas passagens dos arranjos com sons mais baixos e/ou mais prolongados.
Aqui novamente, uma das decisões acertadas da Philips durante o desenvolvimento do CD foi o de mudar a codificação para o áudio digital (PCM) e assim garantir que não houvesse ruído de qualquer espécie na reprodução do disco. A relação sinal/ruído do CD é de mais de 96 dB e o ruído de fundo inexistente. Notem que o desenvolvimento do CD visou inicialmente o ouvinte típico do repertório clássico, do tipo que, na sala de concerto, não gosta de ouvir ruído de quem está sentado próximo.
O áudio digital, neste caso, permite não só a melhor dinâmica para a gravação e reprodução de música clássica, mas também a captura do maior espectro possível da faixa audível, notadamente das frequências mais baixas, cuja reprodução no elepê sempre foi claudicante, desde o momento quando o acetato é cortado. Erros ou falta de precisão na curva de equalização dos circuitos pré-amplificadores de fono agravam mais ainda este problema.
As críticas sobre o áudio digital que não procedem
Uma das maiores asneiras entre as críticas feitas ao som do CD na década de 1980 foi a de que ele não reproduzia harmônicos, o que está longe de ser verdade. O CD tem uma faixa de resposta plana que atinge até 22 KHz e isto cobre toda a resposta de harmônicos dos instrumentos de sopro ou cordas, o suficiente para que a reprodução dos sons seja correta.
O que mais me impressionava naquele época do lançamento do CD era que os defensores do vinil afirmavam que o elepê atingia até 30 kHz. Pois bem: eu conheci audiófilos que compravam um elepê, tocavam uma vez para ouvir como ele soava, e depois uma segunda vez, para gravar o disco em uma fita de rolo. Isso era feito pelo receio de que a trilhagem dos sulcos varresse os agudos dos discos.
Eu também conheci um audiófilo que pingava água durante a reprodução do elepê, para tirar o ruído do vinil. Depois da gravação feita, o som do disco estava literalmente arruinado, Não por mera coincidência, tratava-se de um colecionador de música clássica. Depois que o CD saiu, ele abandonou toda a sua vasta coleção de elepês.
Foi por causa disso e de outros tantos motivos que eu nunca me envolvi em discussões com audiófilos, e um amigo meu que às vezes fazia isso se arrependeu amargamente várias vezes de tê-lo feito!
Até hoje, eu me sinto aliviado de não precisar ouvir ruído no lugar do silêncio ou das passagens mais tênues das orquestrações. Instrumentos que tocam mais ao fundo são beneficiados pelo silêncio da mídia e tornam a audição muito mais prazerosa, porque a dinâmica do que é executado é por isso mesmo mantida.
É impossível comparar música ao vivo com a reprodução em casa. Eu já ouvi monitores de estúdio com som excelente, mas também não se comparam com a música não amplificada. Assim, todo e qualquer esforço para se compensar a melhor dinâmica possível sempre compensa a quem gosta de áudio e de música. [Webinsider]
. . .
Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.








