Ardil 22 se tornou sinônimo de algo do qual não se pode escapar. O romance do mesmo nome foi base do filme de 1970, pelo diretor Mike Nichols e chega agora em versão restaurada para imagem 4K com Dolby Vision.
O cinema americano sempre teve dificuldade em dar liberdade de expressão a roteiristas e diretores, embora muitos deles tenham recorrido a sutilezas que passavam desapercebidas dos poderosos chefões dos estúdios, a maioria que não queria, e fazia tudo para evitar, confrontos com a censura.
Mas o advento da chamada guerra fria, que começou em 1947. no período subsequente à segunda guerra mundial, e só foi acabar em 1990, depois da queda da União Soviética, agravou a preocupação dos estúdios com a censura. A perseguição aos cineastas de esquerda foi implacável, e os que se recusaram a dar depoimento e se auto reconhecerem como comunistas acabaram presos por desacato aos homens da justiça que os haviam convocado para depor.
Na década de 1970, o ambiente era outro e o cinema americano já havia amadurecido e com muito mais liberdade para realizar projetos contra o establishment. Em 1970 mesmo, a Fox lançou o filme MASH, dirigido por Robert Altman, com participação no roteiro do escritor Ring Lardner Jr., um dos 10 de Hollywood que fizeram parte da lista negra de cineastas que foram presos e perderam seus empregos.
Neste mesmo ano, a Paramount lançou Catch-22 (Ardil-22), dirigido por Mike Nichols, que já se aventurara em filmes polêmicos e/ou com roteiros de crítica social pronunciada.
A base da estória é simples e baseada em um paradoxo, rotulado pelo autor do livro que deu origem ao filme de “Ardil-22”: um artilheiro da força aérea (Yossarian) pede para não voar mais, com medo de morrer. Mas, se ele tem este medo, significa que ele está são, e portanto apto para voar. Ou seja, o ambiente da guerra e as lutas resultantes dela são insanas, podendo levar qualquer um à loucura, quer dizer se sentir insano na guerra é normal.
Em Ardil-22 o artilheiro Capitão Yossarian, protagonizado por Alan Arkin. está esgotado e estressado em alçar voo para entrar em missão de combate. Então, ele tenta convencer o médico da base para dizer que ele está insano e não pode embarcar nas missões. Aí então, o médico diz que não pode fazer isso, por causa do Ardil-22.
O filme teve sua época. Além de Alan Arkin, uma série de atores e atrizes, todos ainda muito jovens, iriam fazer parte de filmes similares de críticas sociais, em tom de sátira, e da mesma forma como em Ardil-22, usa-se a guerra para que esta sátira antiguerra seja construída, recheada de humor negro.
No elenco do filme aparece Art Garfunkel, músico da dupla Simon e Garfunkel, que fez sucesso nesta época, justamente no filme A Primeira Noite de um Homem (The Graduate) do diretor Mike Nichols. A carreira de Garfunkel como ator não durou muito. Também se vê na tela Buck Henry, roteirista de várias comédias da época.
Orson Welles, outro banido e perseguido em Hollywood, faz o papel do General Dreedle, que chega de repente na base, acompanhado do seu filho inconveniente e da sua sensual auxiliar, que, ao se sentar, cruza as pernas e fica apalpando as coxas, deixando todos os soldados doidos e próximos do delírio, por falta de companhia feminina. A cena é hilária e marca com força o tom de comédia sobre a insanidade da vida daqueles homens.
A restauração e o lançamento em 4K
Não foi a Paramount, mas o selo Shout Factory quem lançou Catch-22 direto em Blu-Ray 4K, alegando que a nova masterização foi feita com o negativo original de câmera. A imagem do disco é tratada com Dolby Vision e é incomparável, se comparada à da versão em DVD, como era de se esperar.
Também a trilha sonora ganhou o aprimoramento adequado. O filme foi exibido nos cinemas em Panavision mono, como acontecia muito na década de 1970. Mas, o estúdio havia feito uma trilha de 4 canais, não sei se lançada nos cinemas. Eu imagino que esta trilha foi no mínimo tomada como base para a remasterização e a mixagem em DTS HD MA de 5.1 canais. A trilha já havia sido usada no antigo DVD, mas a meu ver sem dúvida a do novo Blu-Ray é muito superior.
Ardil-22 é, na minha opinião, um filme provavelmente difícil de assistir por plateias mais jovens, diferente da situação americana da década de 1970, com protestos contra a guerra do Vietnam e contra a indústria de armamentos que se beneficiou disso.
Na década de 1970, Richard Nixon foi eleito prometendo acabar com a guerra do Vietnam, que foi o que ele fez, mas no meio do seu mandato renunciou por conta do escândalo de Watergate. Os soldados voltaram, mas apesar da volta, o cinema continuou a não poupar a guerra e as suas consequências das críticas.
Ardil-22 se tornou momentaneamente e por algum tempo uma expressão que foi sinônimo de uma situação em que não se tem escapatória. Às vezes, eu penso que a gente aqui ainda vive politicamente e na burocracia da vida pública este tipo de situação. [Webinsider]
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Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.









