A diferença entre filme de guerra, político e de propaganda

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A diferença entre filme e propaganda

As mensagens subjacentes dos roteiros de cinema, quando são usadas com fins políticos, mostram a diferença entre filme e propaganda.

 

A segunda guerra mundial foi uma das mais documentadas guerras do século passado. Filmes rodados em ambos os lados permitiram que historiadores pudessem fazer uma análise sobre todos os eventos que ocorreram durante a guerra. Com o término, mais filmes foram descobertos e acabou-se tendo mais fontes de informação, sobre dados até então obscuros.

Isto prova que o cinema foi a mídia que mais ajudou a entender a guerra propriamente dita, e depois ajudou mais ainda quem quis estudar o que se passou. Os ingleses viram no então Ministro da Propaganda nazista Joseph Goebbels o principal articulador do processo de convencimento de aceitação do regime e dos seus credos.

Goebbels foi considerado por eles como “o pai da propaganda moderna”!

A propósito, na comédia “Crazy People”, de 1990, Dudley Moore faz o papel de um profissional da publicidade que resolveu fazer propagandas honestas e foi considerado doido, e internado. Porque, no geral, a propaganda é a venda de uma mentira, martelada na cabeça do consumidor, até que ele acredite que o que se vende é verdade!

Quando Goebbels tomou conta do estúdio da UFA, uma das coisas que ele impôs foi a realização de filmes sem a mensagem direta da coisa política. Explicando melhor: um roteiro de cinema tem mensagens diretas e mensagens subjacentes. Essas últimas estão escondidas nas entrelinhas do roteiro, somente perceptíveis pela sensibilidade e/ou pelo subconsciente da plateia.

Na prática, seria fazer um filme sem mensagem política alguma, mas ainda assim capaz de convencer o público de que o regime nazista era a única chance de preservar a raça ariana, com a ajuda e força do Chanceler salvador. Tal estratégia veio, é claro, acompanhada de censura e intensa repressão aos opositores, e morte aos meios de comunicação.

A produção de filmes no pós-guerra

Durante os anos de guerra, e até hoje, estúdios do mundo todo produziram filmes sobre a guerra ou sobre eventos significativos da mesma. Na maioria dos filmes, a segunda guerra continua sendo o pano de fundo dos roteiros.

Durante a guerra, filmes de propaganda, inclusive em curtas de animação (Disney,Warner, MGM, por exemplo) foram feitos para a exibição no front e para os cinemas em geral. Mas, alguns cineastas foram para o campo de batalha, e lá sentiram o drama que os soldados viviam.

Johm Ford foi um deles, arriscando a própria vida em alguns momentos. O cineasta Robert Parrish, que era seu editor ba época, disse que Ford trouxe os filmes que ele rodou no front e perguntou a ele se ele conseguia fazer um documentário daquele material. E quando Parrish perguntou se era um filme de propaganda, Ford imediatamente lhe ordenou que nunca mais repetisse aquela palavra, e que o filme era para as mães dos soldados, que não sabiam o que havia acontecido com eles no front de batalha.

A motivação de Ford foi clara: filmes de propaganda tem um único objetivo: convencer quem assiste que uma mentira contada repetidas vezes é o espelho de uma realidade inventada, raciocínio novamente atribuído a Goebbels.

Notem que filmes de propaganda, com este objetivo, povoam as telas e as nossas mídias até hoje, alguns com a sutileza nazista formulada por Goebbels!

Ainda estou aqui!

Eu também! Quando o filme do cineasta Walter SallesAinda estou aqui” começou a ser badalado, me perguntaram se eu havia visto e se gostei do filme. Não tinha, e fui me informar sobre a produção e do que se tratava. Quem me perguntou, como todos os meus conhecidos, sabe que eu fui um entusiasta do cinema desde criança, que assisti centenas de filmes de tudo quando é tipo, fui cineclubista, fiz curso de cinema ainda adolescente com o pessoal do Cineclube Nelson Pompeia, da PUC-RJ, e emérito frequentador de cinemas de arte e cinematecas. Em suma, um apaixonado por cinema e tudo o que ele representa.

No filme de Salles, o foco do roteiro foi o drama em torno da família do então deputado Rubens Paiva, preso, torturado, assassinado e depois vítima de um acidente inventado pela polícia que o prendeu. A estória se prende a uma época terrível e perigosa da vida brasileira. A polícia podia prender quem quisesse, sem mandato ou justificativa.

Eu creio que ninguém, ou nenhum cinéfilo que se preze, poderia objetar o enfoque deste tipo de tema ou assunto, afinal os crimes de repressão, tortura e morte sempre foram dignos de todo o tipo de repúdio e condenação.

Mas, eu fiquei instantaneamente reticente. Eu já tinha visto o filme Diários de Motocicleta, de Walter Salles, onde Che Guevara foi pintado como um sujeito puro, idealista e herói dos pobres e oprimidos.

É nessas horas que a cultura e os estudos de qualquer um sempre fala mais alto, neste filme, porque a figura de Guevara foi decantada em prosa e verso, mas nenhuma menção é feita sobre as barbaridades nas quais ele participou.

Fica claro para qualquer um que o cineasta é apologista de heróis de esquerda, jamais um analisador imparcial e honesto da coisa política, porque ele só mostra um lado da história. Então, porque ressuscitar o drama de Rubens Paiva e sua família logo agora, momento em que a esquerda passa por total descrédito e está perdendo popularidade?

A classe artística de ontem e de hoje

A classe artística, seja cinema, teatro ou literatura, é da maior importância na cultura de qualquer país. Na época da ditadura militar, esta classe protestou contra a censura. Veja abaixo alguns flagrantes registrados nestes momentos:

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Dá para notar quem participa dos protestos? E ai eu pergunto: porque depois que a esquerda apoiada por eles tomou o poder essa mesma gente fez campanha contra as redes sociais? O que é que tem nessas redes que os incomoda tanto? Por acaso, a liberdade de expressão não deve ser preservada, mesmo que não se concorde com o que é dito?

O filósofo francês Voltaire foi o autor da icônica frase “Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”, aproximadamente traduzida.

Este é o espírito insofismável de uma democracia real, não daquela maquiada por propaganda! Infelizmente, não é o que ocorre hoje, quando a classe artística endossa a mesma censura contra as redes sociais que o sistema vigente propõe.

Devido a tudo isso, eu preferi dizer ao meu interlocutor que não quero assistir propaganda subliminar, pouco importa quantos prêmios o filme de Salles ganhe. Eu tenho certeza da decisão que tomei. Na minha vida profissional eu sempre me guiei pela filosofia de Voltaire: ouvi as maiores sandices de pessoas ao meu redor, e fiquei quieto. Mas, evito, e faço pouco, cruzar com pessoas, com palavras, ou, como neste caso, com filmes, que agridem o que eu aprendi a duras penas, quando me tornei mais velho.

É preciso distinguir entre inteligência, cultura e educação. Uma pessoa pode nascer inteligente, mas se não a aproveitou para estudar mais e se aprimorar, ela não evoluiu intelectualmente. Foi por isso, em última análise, que a esquerda brasileira, composta por pessoas inteligentes, morreu e esqueceram de enterrar. Essa esquerda nunca amadureceu, seus propositores ficaram restritos a uma cultura paroquial, e ignoraram o que se passou no resto do planeta.

Aqueles mesmos artistas de esquerda, que no passado condenaram o sistema, o usam hoje sem nenhuma censura. Intelectuais deste tipo endossam a censura na Internet, haja visto o caso recente do bloqueio do X. Na prática, significa que são dois pesos e duas medidas: se não concordarem comigo, eu censuro!

É inadmissível que a censura seja exercida, seja lá onde for, com fins políticos. Esta censura irá impedir que cidadãos (e não “cidadões”) de bem opinem contra os desmandos e contra a corrupção das instiruições. A democracia dá direito pleno a cada um de comentar ou protestar quando se sente atingido. Na ditadura militar, a imprensa foi calada com a censura prévia, e agora, querem calar também?  [Webinsider]

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O X da questão

Avatar de Paulo Roberto Elias

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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