A DMP (Digital Music Products) foi uma das gravadoras pioneiras das gravações digitais na década de 1980, com métodos minimalistas e gravações de alta qualidade.
Por volta de 1983 o engenheiro de gravação americano Tom Jung resolveu criar a gravadora Digital Music Products, conhecida pelo seu acrônimo do original DMP.
Jung começou a sua vida profissional como engenheiro de corte de acetato, no qual ele se mostrou insatisfeito, em função das inúmeras limitações deste tipo de mídia. Mas, quando a 3M apresentou o seu protótipo de gravador digital para testes de campo, ele se interessou pelo assunto e anos depois resolveu fundar a DMP, justamente a seguir do lançamento do CD.
A DMP se tornou entre nós um ícone de som de alta qualidade quando eu e vários amigos procuramos novos lançamentos em CD, mais ou menos por volta desta época. Usando técnicas de gravação minimalistas, como, por exemplo, gravar direto em 2 canais, a DMP lançou discos com excelente qualidade.
Muito embora Tom Jung tenha anos depois se queixado do PCM e se dedicado ao DSD, o fato é que os CDs daquela época ainda hoje soam soberbos. O grupo de amigos que eu frequentava na década de 1980 tinha cada um suas preferências em relação aos lançamentos da DMP. Um disco que representou o gosto de vários de nós foi o da gravação do baixista Jay Leonhart “Salamander Pie”, tocado à exaustão nos nossos encontros:
A gravação se restringe aos vocais de Leonhart, junto com os seus solos de contrabaixo, e ao acompanhamento do pianista Mike Renzi. O encarte do CD vem com as letras, todas elas escritas pelo baixista. Eu imagino que ele deve ter visitado as praias do Rio de Janeiro, porque na letra da música “Flight 861” ele se refere a uma moça atraente com uma blusa da UCLA, que, segundo ele, iria deixar os “cariocas” doidos…
Por várias vezes este disco e outros similares fizeram jus a testes de equipamentos, amplificadores e caixas acústicas diversas, além de subwoofers. Todos nós rapidamente percebemos que não era mais possível reproduzir som digital sem abandonarmos antigos conceitos de amplificação. Daí a procura de amplificadores com fontes de alimentação adequadas, servidas por circuitos eletrônicos com um slew rate que permitisse uma rápida resposta na reprodução de transientes.
Notem que a onda musical no som digital não guarda relação entre frequência e amplitude, ou seja, na prática a reprodução de instrumentos pode alcançar uma dinâmica muito maior do que a do som analógico. O CD mesmo, além de um baixíssimo ruído de fundo, impossível de medir, alcança uma faixa dinâmica de mais de 90 dB. Assim, a reprodução correta de um CD pede uma cadeia de reprodução capaz de resolver transientes de forma adequada. A propósito, muito se fala hoje em streaming de alta resolução, mas nenhum deles se compara a um CD de boa qualidade, quando corretamente reproduzido.
A mudança para o DSD anos mais tarde
Tom Jung nunca ficou satisfeito com a gravação em PCM. Ele alegou ter tentado resoluções de medidas, desde 16 bits até 24 bits, sem resultados satisfatórios. E quando a Sony começou a demonstrar o DSD ele começou a se envolver com o SACD, relançando vários dos seus títulos anteriores convertendo PCM para DSD.
Além disso, interessou-se pelo som multicanal, acompanhado pelo DSD, mesmo sabendo das notórias objeções de audiófilos com este tipo de reprodução. Jung percebeu algumas dificuldades na mixagem final do som multicanal, a tal ponto que ele decidiu usar seis microfones para seis canais de um gravador DSD, em uma tentativa de tornar a reprodução mais próxima da gravação “ao vivo”, com o aumento da ambiência.
No caso específico de Django, mostrado acima, são apenas dois músicos gravando: Joe Beck (guitarra) e Ali Ryerson (flauta alto). Beck aparenta tocar uma guitarra Beck-Alto, proprietária, instrumento capaz de dividir o som das cordas em graves e agudos. N.B.: a batida da bossa nova pode ser ouvida logo na segunda faixa, com o tema de Laura, e segue com Carioca Blue e O Barquinho.
Apesar da adesão da DMP ao DSD, eu noto que os CDs continuam no catálogo da gravadora. Para os meus ouvidos, pelo menos, o som desses antigos discos ainda soam muito bem.
Além disso, é importante mencionar que nas várias discussões de técnicos e de audiófilos sobre as diferenças entre DSD e PCM não há consenso sobre qual dos dois é melhor, porque as críticas são feitas em ambos os formatos. Uma delas que eu já li, por exemplo, reclama da amostragem de 1 bit no DSD, insuficiente para garantir que a onda musical seja corretamente capturada. Outros argumentam que o PCM não é preciso na amostragem, ao seguir a onda musical.
Sinceramente, eu e vários amigos nunca embarcamos nesta discussão, e portanto, preferimos preterir as preferências entre os dois formatos. Na minha coleção, eu tenho PCM e DSD convivendo pacificamente. A se lamentar é que tanto DVD-Audio quanto o SACD tenham se tornado formatos frequentemente descontinuados, este último ainda sobrevivendo ocasionalmente. Além disso, aparelhos de reprodução para esses formatos continuam escassos e absurdamente caros, deixando o audiófilo tradicional que se afasta do streaming sem muita opção.
A gravadora DMP ainda sobrevive, tendo enviado várias de suas gravações aos serviços de streaming. A mídia deles à venda pode ser encontrada online, mas os discos são caros. Assim, quem quiser ouvir o que de bom eles gravaram, o streaming parece ser a única solução. [Webinsider]
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Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.










