Existem vários aplicativos que interceptam a chamada recebida e pesquisam em um banco de dados para identificar se a ligação é fraude ou spam.
Não faz tanto assim que eu descrevi as agruras da vida online e as intermináveis tentativas de golpe pela linha telefônica. De lá para cá, eu vi as estatísticas do que os criminosos arrecadam com esses golpes, e bastaria isso para que a administração pública tomasse providências para ontem, de maneira a saber quem são essas pessoas que abusam da boa fé alheia.
De início, eu tive curiosidade de saber como os robôs esbanjam ligações sem gastar muito, e a resposta é que os sistemas fraudadores usam um programa com ligação VoIP (Voz sobre protocolo IP), de custo reduzido local e estadual.
O modus operandis
Segundo especialistas da área, os criminosos usam a Internet no modo VoIP, como mencionado acima, ao invés das linhas telefônicas normais. Com isso, o custo operacional baixa muito.
Algo parecido é visto no filme War Games, de 1983, quando David mostra um programa entrando em rede, via modem, para discar números procurando uma desenvolvedora de jogos. Jennifer pergunta se não é caro fazer aquilo, e ele diz sorrindo que “existem maneiras de contornar aquilo”, o que coincide como referência com aquelas caixas azuis que a turma do Apple fazia, para conseguir ligações de graça.
Programas de discagem automática funcionam como se fossem robôs, à cata das potenciais vítimas. Basta atender a ligação e falar qualquer coisa, que o sistema registra o número contactado como “ativo”.
A partir daí, várias coisas acontecem: uma delas, a ligação cai, para que depois seja feita uma outra ligação com a tentativa de fraude, que tanto pode ser uma mensagem gravada, quanto feita por um suposto funcionário de alguma entidade financeira.
A voz de quem atende pode ser clonada, para depois ser usada em um golpe contra terceiros. As mensagens gravadas solicitam que a vítima tecle ou toque em um dado número, para “falar” com alguém, que irá aplicar o golpe.
Nas mensagens gravadas ou por viva voz, o criminoso aposta na ansiedade do atendente, pedindo urgência na solução de um problema, como, por exemplo, a confirmação de uma despesa alta no cartão de crédito. A mensagem se anuncia como vinda de um banco ou de uma seguradora. Além da “urgência” aplica-se a pressão psicológica no usuário, dizendo que se ele não fizer nada terá algum tipo de prejuízo financeiro e/ou bloqueio de contas ou cartões.
O que fazer?
O mais óbvio é ter calma, ou seja, não se deixar estressar pela ameaça do fraudador, e a seguir, desligar a chamada imediatamente. É difícil, embaixo de uma pressão dessas, mas é o que deve ser feito. A segunda coisa óbvia é nunca pressionar ou tocar em números mencionados na chamada. É a mesma atitude que se recomenda ao receber um e-mail ou SMS falso, que solicita que quem atende ou leia clique em um link.
Um resumo desses alertas e providências cabíveis foram explicadas neste vídeo, que eu compartilho:
No YouTube existem vários vídeos deste tipo, que valem a pena ser assistidos por quem quer se informar melhor.
Uso de aplicativos identificadores de chamadas no celular
Existem hoje vários aplicativos que interceptam a chamada recebida e pesquisam em um banco de dados, para conferir que se trata de uma mensagem spam ou fraudulenta. Notem que chamadas fraudulentas podem ser identificadas com nomes de usuários fictícios. Mas, se a gente não sabe quem é, manda o bom senso não atender.
Por esses dias, cansado de receber ligações indesejadas diariamente, eu resolvi instalar e testar o aplicativo Truecaller (True, neste caso, significando ser de uma ligação legítima). Na instalação, eu optei pela versão gratuita, infelizmente cheia de anúncios.
Depois de alguns dias, o programa passou a me informar em tempo real a fonte da ligação, na forma de uma mensagem “pop-up”. Muitos usuários que fizeram críticas a este aplicativo se queixaram deste aviso na tela do celular. Eu teria preferido me queixar dos anúncios, porque a identificação da ligação serve de alerta e permite desligar antes de atender.
Ambos Android e Apple têm recursos para bloquear chamadas, mas é difícil prever a eficiência deste recurso. No meu telefone Android eu já configurei para alguma proteção de spam, mas não achei cabível impedir qualquer chamada fora da lista de contatos, devido à necessidade de receber ligações legítimas de terceiros. Se a ligação de spam for detectada por esta configuração, ela é automaticamente desligada. Mas, nem sempre isto acontece, tanto assim que eu continuei recebendo ligações de spam.
Daí então a necessidade de se empregar outros recursos. Se o Truecaller acabar dando certo ele fica instalado, se não eu irei achar outro similar. Por enquanto, os resultados são promissores, apesar da chatice dos anúncios. Tanto assim, que, por coincidência, o número de ligações indesejadas diárias caiu muito.
Tomara que isto seja um indício de que a instalação do programa valeu a pena. Um aviso importante, porém: quando rodando este aplicativo pela primeira vez, ele pede permissão de acesso de informações do celular. Uma delas, que pedia acesso a fotos e mensagens, eu recusei! No final, cabe ao usuário aceitar ou não a intromissão nos seus dados pessoais, a conhecida “invasão de privacidade”.
De qualquer modo, não é prudente subestimar o roubo de dados feito pelos criminosos. Existe uma ironia nisso tudo, muito comentada online: os meios de comunicação evoluíram a um ponto antes inimaginável, mas, em contrapartida, os assaltos presenciais passaram a ser virtuais, e são mais difíceis de combater! [Webinsider]
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Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.









