Fitas magnéticas de rolo e elepês foram historicamente os meios pelos quais se podia ouvir música em casa, cada um com seus prós e contras.
Desde tempos imemoriais eu me vi diante de uma fidelidade real na reprodução do som, quando comecei a usar um gravador de fita de rolo Philips que eu havia ganho de presente, e com ele uma fita de rolo pré-gravada.
O meu Philips era um modelo típico da época, com velocidades de 1 7/8 ips (inches per second ou polegadas por segundo), 3 ¾ e 7 ½ ips. Era possível gravar um único canal, som estéreo, ou fazer um overdubbing, que consistia em gravar um canal, e depois o outro canal, reproduzindo o canal previamente gravado, uma mão na roda para músicos.
Um microfone cardioide vinha junto com o gravador e era muito bom. Tempos depois, a Philips lançou um novo modelo, que tinha sensores de tensão antes e depois da passagem da fita magnética pelas cabeças. Eu tive acesso a um e fiz um teste, tocando uma fita muito fina, que em gravador sem estes sensores, reproduzia o áudio com um chiado desagradável. Abaixo, eu ilustrei imagens aproximadas desses dois modelos:
A manutenção de gravadores de rolo nunca foi barata, então foi preciso ter meios de conseguir comprar fitas de boa qualidade e preço. A loja do Veiga representava a EMI e passou a vender fitas de rolo com essas condições.
Hábitos de colecionadores
Eu tenho um amigo americano, com que troquei opiniões sobre qualidade de áudio e mídia de reprodução. Eu havia comprado uma versão em CD do disco Tempestuous Trumpet, com o trompetista Doc Severinsen e orquestra, gravado pela Command Records, que foi lançada pela etiqueta inglesa Sepia Records. Esta gravação era historicamente importante para mim, e fez parte do início da minha adolescência e de amigos da época. O elepê que eu tinha foi lançado pela Musidisc, com capa de cartolina sofisticada, em mono. Eu consegui depois o elepê estéreo importado e o remasterizei com o editor Cool Edit Pro, programa que não existe mais.
O disco da Sepia usou a fita original da Command, e ainda incluiu o disco The Big Band’s Back In Town, porém a faixa Baubles, Bangs And Beads (primeira do lado 2 do elepê) veio cortada no meio. Eu entrei em contato com o dono da Sepia, e ele me disse que para o CD conter os dois discos o seu técnico de remasterização foi obrigado a cortar parte daquela faixa.
Eu, é claro, fiquei indignado. Não teria sido mais sensato lançar os dois discos em CDs separados? E foi então que eu conheci este meu amigo, que fez questão de me enviar uma cópia da fita pré gravada da Command que ele tinha e me pedir para comparar as respectivas qualidades do áudio obtido. Para tal, ele usou um deck Teac X-2000R e um gravador de CD de mesa profissional Tascam CD-RW 700.
Nossa amizade já dura cerca de uns 20 anos. Esse meu amigo é um colecionador de fitas pré gravadas, que às vezes ele compra em lotes de usuários que querem se livrar das suas coleções de qualquer modo. Muitas dessas fitas já estão muito desgastadas e apresentam ruídos de vários tipos. Então, quando ele me manda uma cópia eu edito tudo aqui em casa, limpando os ruídos e conferindo uma série de detalhes.
Como ele coleciona fitas e eu não, eu combinei com ele comprar fitas usadas do meu interesse no Ebay e mandar para a casa dele. De volta, eu edito cada faixa e faço os meus CDs. Uma das gravações que ele me mandou eu editei como demonstração no YouTube, com fita de 2 canais de alta qualidade. Para quem ainda não viu, o vídeo é esse aí:
A fita pré gravada de dois canais exige o uso de um deck adequado, e o resultado auditivo é o melhor possível, mesmo com reprodução a 7 ½ ips. Hoje em dia, algumas empresas vendem fitas similares, copiadas com velocidade de 15 ips, para uso profissional.
Prós e contras das fitas magnéticas
As fitas magnéticas pré gravadas, quando corretamente duplicadas, têm uma qualidade de som excepcional, que raramente um elepê conseguirá igualar. Eu tive a chance de visitar a antiga Tapecar, onde vi uma master de 2 polegadas comandando uma série de decks, chamados pelos técnicos de “escravas”, assim conseguindo a duplicação desejada. O destino podia ser fita de rolo, fita de cartucho e fita cassete, e eles duplicavam tudo isso. Todo o processo é automático. Um sinal chamado de Q (acrônimo de Cue) é gravado no rolo contendo as fitas a serem montadas, e este sinal é detectado por uma máquina de corte, que separa as partes duplicadas, a seguir montadas nos respectivos suportes.
Um dos contras das fitas magnéticas é o perigo da sua manipulação, onde substâncias da flor da pele, como, por exemplo, resíduos de gordura, podem contaminar a superfície da fita. Esta foi inclusive uma das razões pelas quais a fita cassete da Philips foi planejada, eliminando essa manipulação.
Um outro contra é o depósito de óxido nas cabeças e nos guias do deck. O arraste da fita pode provocar pequenas ou grandes desprendimentos do material gravável. O correto é armazenar as fitas em local sem umidade, mas mesmo assim elas contaminam as cabeças e guias. O técnico do estúdio faz uma limpeza rotineira de manutenção, que consiste em limpar tudo com álcool isopropílico a 99% de pureza e desmagnetizar cabeças e guias com um aparelho dedicado.
Vejam que não basta só limpar. O desmagnetizador recupera a resposta de todo o espectro auditivo, mas principalmente as frequências mais altas. A diferença entre o antes e o depois é enorme, o que justifica o uso rotineiro deste tipo de limpeza.
Um dos maiores prós das fitas pré gravadas é o da ausência de distorção e o aumento da dinâmica, quando comparadas aos respectivos elepês. O único obstáculo é o da velocidade de gravação e reprodução, que segue a regra que “quanto maior, melhor”. Por causa disso, em estúdios não era incomum gravar com velocidade de 30 ips, ao invés de 15 ips, que é o padrão da maioria das gravações.
Outro grande pró até hoje é o do aperfeiçoamento das formulações de material magnético que cobre o suporte das fitas, geralmente poliéster (bem melhor) ou celulose (mais abrasivo), no caso do rolo. Na era cassete, as cabeças dos decks sofreram profundas modificações, aumentando a durabilidade e a fidelidade sobremaneira.
Prós e contras dos elepês
O disco fonográfico proposto por Berliner foi o que permitiu o acesso à música gravada nos estúdios por qualquer pessoa dotada de um toca-discos. Aqui novamente o aperfeiçoamento contínuo dos equipamentos de reprodução foi o que, em última análise, permitiu a expansão da alta fidelidade e do som estereofônico para um significativo número de consumidores.
Isto se deu com o aparecimentos das “vitrolas”, mono e depois estéreo, e dos módulos separados para a montagem discreta, disponíveis para audiófilos dedicados, formato este que prevaleceu um longo tempo na escolha do meio de reprodução.
O disco fonográfico, para a sua posterior duplicação, precisa antes ser cortado em um disco de acetato, num torno que é alimentado por uma fita magnética, ou, se for o caso, diretamente da fonte de sinal, o chamado “corte direto”, tão badalado na década de 1970.
O corte do acetato é um método preciso, mas que precisa ser feito com muita cautela. O formato de disco não permite uma resposta plana do espectro auditivo, e isso obriga ser usada uma curva de equalização adequada quando o acetato é cortado. No Brasil, adotou-se a curva estabelecida pela RIAA (Record Industry Association of America). Esta curva, em princípio, impede que os sulcos cortados possam ser estourados pela intensidade (amplitude) de certas frequências.
Na reprodução do elepê é preciso usar o inverso dessa curva, o que é projetado nos circuitos do pré amplificador de fono. Circuitos mal projetados irão introduzir distorção na reprodução do sinal gravado. Por isso, bons pré amplificadores de fono viraram obsessão de audiófilos até hoje.
O corte do acetato é feito por uma cabeça de corte que varre o disco linearmente e a agulha de corte tem um ângulo definido, de 15 ou 20 graus, que não pode ser ajustado nas cápsulas de reprodução, sob pena de danificar o elepê. Os fabricantes de cápsulas montam as agulhas prevendo isso, mas é preciso que a cápsula seja montada corretamente pelo usuário.
Um grande inconveniente no uso do disco fonográfico moderno consiste no alinhamento o mais preciso possível do conjunto braço e agulha. O usuário precisa conhecer estes alinhamentos, principalmente quando eles são necessários nos toca-discos mais sofisticados, que permitem (exigem) que esses ajustes sejam feitos.
Outro grande inconveniente é o da presença de artefatos que resultam dos processos de prensagem. O vinil é um plástico, e como tal, para ser moldado, deve ser aquecido e se espalhar na estampa da madre. O processo compreende o aquecimento, moldagem e posterior resfriamento do disco de plástico. Se bolhas de ar forem formadas, elas podem estourar e deformar os sulcos do disco. Na reprodução, este artefato é conhecido como estalido, que é tecnicamente um ruído de impulso, um som transiente, que é fácil de visualizar nos bons editores de áudio.
Como qualquer substância usada em laboratório ou na indústria, o vinil pode ter graus de pureza variáveis. O vinil mais puro é o de melhor qualidade, mas custa caro prensar e mais caro ainda para comprar o disco pronto. Restos de vinil saídos das prensas são reaproveitados e geralmente resultam em discos com muito ruído de massa, às vezes insuportáveis de ouvir. Nos meus tempos de digitalização dos meus antigos elepês eu usei filtros para eliminar qualquer ruído de massa, porque quanto menos ruído no áudio, melhor a parte musical é preservada!
Os melhores discos que eu ouvi foram prensados com vinil puro, e com um corte que respeitou a distância entre uma linha de sulco e outra. Eu conheci um audiófilo que era partidário do que ele chamava de “sulco padrão”, quer dizer discos cortados com as linhas devidamente separadas e sem interagirem entre si.
Discos comerciais normalmente abusam do tempo de gravação em cada lado, cortando as linhas com uma distância muito pequena, e provocando distorção. No torno Neumann que eu vi funcionando na sala de corte da Polygram, uma cabeça de pré escuta no deck Studer de 2 canais usado para o corte permitiam estipular a distância correta entre uma linha e outra, a ser determinada pelo computador de bordo do torno.
Mesmo assim, a queda de velocidade linear da agulha indo ao centro do disco quase não pode ser evitada, e este sempre foi o principal motivo pelo qual os discos de corte direto da década de 1970 evitavam gravar mais do que 15 minutos de música de cada lado!
A despeito de todas essas limitações dos discos de vinil, ainda existem fabricantes de toca-discos e braços extremamente sofisticados, verdadeiras obras de arte, para quem quer preservar ou só gosta mesmo de discos deste tipo.
Conceitos de audiofilia e do bom senso de quem ouve
Outro dia mesmo, eu vejo um vídeo no YouTube onde um cidadão discursava classificando audiófilos, entre os que só olham para os equipamentos e os que fazem isso só para ouvir música. Segundo ele, esses últimos geralmente instalam um dado conjunto de componentes e não os trocam mais.
Pois bem, eu que não tenho nada a objetar e nem nada a haver com isso, e entendo que “audiófilo”, por definição, é todo aquele que gosta de som e se dedica a ele, tentando montar o que for possível e o que o seu orçamento permita.
Anos atrás, a eletrônica discreta de melhor nível exigia sempre um poder aquisitivo elevado. No passado distante, eu soube de casos onde um audiófilo gastava muito com isso e teve a sua vida familiar ameaçada!
Nos dias de hoje, a sorte de qualquer audiófilo é o da integração de componentes, que permitiu a diminuição dos custos de produção e o aumento de qualidade a níveis nunca antes sonhados.
Bem verdade que equipamentos de melhor nível continuam caros, mas infinitamente mais baratos do que os ditos “high end” do passado. E vou mais além, os de hoje tem uma maior capacidade de reproduzir qualquer tipo de mídia, desde elepês até áudio multicanal de alto desempenho.
Isto permite simplificar a instalação de componentes, e com o tempo aumentar os recursos desejados, instalando ou substituindo esses componentes.
Em última análise, a reprodução de áudio se tornou mais, digamos assim, “democrática”, no bom sentido não político da palavra. Quem não é audiófilo pode se munir de celulares, fones de ouvido ou caixas acústicas com acesso por Bluetooh. E quem for e puder, vai montando equipamentos integrados, até chegar a ouvir música da melhor maneira possível. [Webinsider]
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Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.











