Muito antes do Napster, usuários já compartilhavam música em fitas cassete, fosse para os amigos ou para a namorada.
Quando em 2000 foi lançado o filme High Fidelity (“Alta Fidelidade”. literalmente, no título brasileiro), o que se viu na tela foi um personagem neurótico obsessivo, criador de listas de discos e de namoradas. Mas, além disso, ele cria também as chamadas mixtapes, fitas com uma compilação de músicas, no caso em fitas cassete. Assistindo o filme, eu não me identifiquei com o personagem, mas com a compilação das fitas.
No início da faculdade eu namorei uma moça bonita, intelectualmente dotada e inteligente, mas que vivia com parcos recursos, e como todo estudante daquela época trabalhava para pagar a faculdade e ter um pouco de autonomia financeira. Os pais não tinham recursos e então ela precisava se virar sozinha.
Um belo dia, ela juntou algum, foi a uma loja de departamentos e comprou um gravador cassete e uma vitrolinha portátil. Vendo isso, eu fui ao centro da cidade, comprei fiação e conectores, e fiz para ela um cabo de ligação para os dois aparelhos, de modo a que qualquer disco pudesse ser gravado em fita, se ela quisesse.
Comprei também uma fita cassete da Basf, cujo estojo era um livrinho. Chegando em casa, pedi emprestado um gravador cassete de um amigo, gravei uma fita de rolo, com uma compilação de músicas que eu esperava que ela gostasse. O meu gravador de rolo me permitiu juntar os canais e mixar em mono, passando o som ao gravador cassete. Nem precisava, mas resultado ficou muito bom, e eu então datilografei a lista das músicas em uma folha de bloco pequena, colocando-a dentro daquele livrinho.
Chegando na casa dela e dando a fita e o cabo de ligação, ela ficou super feliz, passou a guardar aquela fita como se fosse um tesouro pessoal. Mas, algum tempo depois, um dos seus sobrinhos foi na casa dela, achou a fita e apagou tudo, sem ela saber. Quando ela viu, ficou devastada. E quando eu cheguei lá, ela ainda estava arrasada. Mas eu disse a ela que iria recuperar a gravação sem problema, me baseando naquela lista datilografada. E foi o que eu fiz, mas, para surpresa minha, ela pegou a fita de volta, guardou e não tocou mais, e me disse que “não era a mesma coisa”. Aí, quem ficou arrasado e confuso fui eu!
As cabeças pensantes femininas são envoltas em mistérios e eu, naquela época, era imaturo demais para entender uma reação daquelas. Com o tempo, o namoro acabou de repente, mas depois da depressão do momento, eu fui em frente e me vi diante dos estudos aos quais eu precisava me dedicar, como sempre em situações desse tipo. Lição aprendida!
A fita cassete antes do Napster
Eu hoje não tenho dúvida de que a fita cassete foi um veículo importante de compartilhamento musical, e eu até já escrevi sobre a sua criação e morte, aqui no Webinsider.
Eu também tenho 90% de certeza de que nem a Philips previa isso, só foram agir depois que eles viram que a fita cassete vendia mais do que bolo quente. E provavelmente por uma razão de ser muito simples: a manipulação de uma fita de rolo pode ser complicada para que não sabe lidar com ela. Mas, além disso, a fita cassete estava contida em um estojo pequeno, fácil de guardar ou transportar. Tenho certeza de que a Sony percebeu isso, quando lançou o lendário Walkman.
Acho que o que a Philips de fato percebeu foi o potencial de espalhamento comercial de música pré-gravada, o que ocorreu por volta do fim dos anos 60. Eventualmente, foi feito o lançamento de fitas estéreo pré-gravadas. E venderam mais do que os elepês. Talvez tenha sido por isso que o CD levou mais tarde o nome de “Compact Disc”.
A retrocompatibilidade das fitas cassete
Aqui cabe um detalhe técnico importante: na fita de rolo, a gravação estéreo usa as trilhas 1 e 3 no lado A da fita, sentido esquerda para a direita, onde a fita é coletada. E usa as trilhas 2 e 4, no lado B, sentido oposto.
Na fita cassete original mono toda a fita é usada para um único canal, mas quando as gravações estéreo foram feitas, ambos os canais foram gravados nas trilhas 1 e 2 do lado A e 3 e 4 do lado B. Assim, uma gravação mono iria tocar perfeitamente em um gravador cassete estéreo e vice-versa!
Sem dúvida, tal recurso permitiu o espalhamento das fitas para qualquer tipo de aparelho reprodutor. Ninguém precisava se preocupar coma a compatibilidade entre gravações estéreo ou mono.
Independente do romantismo desse compartilhamento de música, a tecnologia das fitas e reprodutores evoluiu muito: novas formulações foram testadas e criadas, novas cabeças de gravação e reprodução foram construídas e houve casos onde equipamentos profissionais (isso mesmo) usaram fitas cassete.
Nas décadas de 70 e 80, quem tinha recurso financeiro, podia investir em um Nakamichi da vida, ou outros do mesmo quilate. E no final, construir uma coleção de fitas que ocupasse pouco espaço e podia ser tocada em qualquer lugar. [Webinsider]
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Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.










Uma resposta
Pois é Paulo
Alem das fitas k7, é raro ver um tape-deck ou walkman funcionando..
A correia de borracha do meu Sony rompeu, e ficou encostado.
Um abraço