Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on telegram
Share on pocket

Quando times de futebol estão vencendo seus jogos, quase ninguém reclama de nada. Quando o oposto acontece, as teorias da conspiração crepitam, sem que o torcedor saiba com certeza o que está se passando.

 

Quem acompanha futebol há décadas já viu tudo o que se passa dentro e fora dos campos onde este esporte é praticado. Os que enxergam o futebol com mais lucidez a este respeito acabam por perceber que não é só a atividade esportiva em si que está em jogo, sem trocadilho.

Agora que a atual Copa do Mundo está acabando ou já acabou, dependendo de quando este texto for publicado, as reações da mídia e de quem assiste os jogos são previsíveis: quando tudo dá certo e o time nacional vai vencendo, mesmo que jogando mal, quase ninguém reclama, mas quando a coisa desanda e o time é eliminado, a catarse de massa termina e as reclamações e teorias da conspiração proliferam.

Aqueles que já tinham se dado conta ou suspeitavam de que estava tudo errado desde o início, começam de imediato a formular teorias sobre o fracasso do planejamento pré copa. Bem verdade, que seleções brasileiras do passado saíram daqui desacreditadas e voltaram convicentemente vencedoras. Só que agora, nem isso.

Mas, então, o que mudou, fora a tradicional e irresponsável arrogância dos envolvidos? O mais óbvio, a meu ver, seria a questão financeira, em todos os seus aspectos. Senão, vejamos:

Jogadores de futebol do passado podiam alcançar a glória dentro dos campos, mas fora deles passavam por dificuldades financeiras, alguns ficavam doentes e sem amparo. Existem casos documentados de um declínio irreversível de atletas como, por exemplo, o de Mané Garrincha, um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos. Por acaso, o Amarildo, grande herói da copa de 1962, morou algum tempo perto da minha casa, e eu esbarrava com ele na rua. Suas pernas estavam arqueadas, não sei nem como ele conseguia andar. Não me parecia, fora este aspecto de saúde, que ele tenha tido o mesmo declínio do Garrincha. Comigo ele nunca se queixou de nada, embora nossas conversas fossem muito breves.

Depois da tal Lei Pelé, os clubes perderam a posse dos seus jogadores, conhecido como passe, que era negociável e poderia ser valorizado. A lei era proposta para dar aos atletas uma espécie de carta de alforria, e assim terminar a escravidão vigente, à mercê então dos dirigentes supostamente sem escrúpulo.

Mas, de lá para cá, os jogadores entram em um clube com contratos convencionais, acionados muitas vezes por empresários também sem escrúpulos. Esses empresários contribuíram para a ruína financeira dos clubes, os quais, mal administrados, ficaram na bancarrota, e só não fecharam as portas ninguém de fora consegue saber por quê.

Aqui no bairro, por exemplo, nós tínhamos o América Football Club, que, embora modesto, tinha no seu ambiente o seu próprio campo de futebol e até piscina olímpica. Um clube centenário, cuja sede abrigava todo mundo da vizinhança. Mas, quem passa hoje pela Rua Campos Sales vê um terreno vazio cercado por tapumes, um espaço que os moradores não sabem ainda que uso ele terá. O clube ainda existe, tem site, mas é inexpressivo perto do que já conquistou.

A corrupção no futebol e nos esportes em geral

Depois do afastamento atual da seleção da copa do mundo, a mídia rapidamente volta a divulgar tudo o que já aconteceu nos escândalos que cercaram várias entidades esportivas. No streaming, eu vi um seriado sobre a corrupção na Conmebol.

A CBF é outra dessas entidades envolvidas em atividades suspeitas, desde a época do João Havelange, e agora até gente ligada ao STF está comprometida com o que está acontecendo. O caso Neymar foi um desses episódios marcados por todo tipo de trapaças suspeitas. O público que vê tudo isso na mídia toma conhecimento dos escândalos, mas nunca os vê devidamente apurados, de modo a saber o que existe de verdade em tudo o que é divulgado.

A seleção brasileira, como a vemos hoje, se mostra um mero reflexo da falta de estrutura dos planejamentos dos clubes e dos escândalos que a cercam. Salários irreais, eu diria surreais, pagos em faixas financeiras mais do que milionárias, são destinados a atletas, junto com lucros entre seus empresários e dirigentes, e quem vive ou fica sabendo do dia-a-dia dos clubes, os jornalistas chamados de setoristas, vê isso acontecer todo dia, quando um atleta daqui ou estrangeiro é contratado.

Dentro do ambiente que se criou, o torcedor vai ficar sempre em segundo plano, mesmo percebendo ou suspeitando que está tudo errado e comprometido com trapaças. A minha geração, por exemplo, jogou futebol em tudo quanto era tipo de campo, portanto é impossível para alguém com esta vivência não assistir uma partida sequer sem perceber o que está se passando e ficar com uma pulga atrás da orelha.

Desde tempos de outrora dirigentes vêm se tornando políticos, sedentos de poder perpétuo e fazendo contratos com empresários ou investidores, que usam atletas como moeda de troca. E como políticos sem escrúpulo, mentem nas coletivas, na expectativa de não serem flagrados mentindo.

O Brasil conquistou cinco copas, e por isso não poderia estar sendo questionado quanto à lisura de conduta das entidades ou dos clubes. Mas, se está, é porque os números não se traduzem em conquistas. A saúde esportiva melhorou, mas a quantidade de torneios jogados simultaneamente impedem que a saúde dos atletas permaneça estável. Sob o ponto de vista médico, chega ser imoral submeter um atleta a esta maratona insana. E até agora, ninguém faz nada para impedir isso, sendo possível concluir que o lado financeiro do esporte fala mais alto.

O Brasil sempre foi visto, às vezes de forma depreciativa, como “o país do futebol”. Famílias humildes encaminham seus filhos para os centros de treinamento cada vez mais cedo. Quando um atleta começa a receber salários muito elevados, uma das coisas notórias que ele faz é comprar um carro de luxo e/ou ostentar o seu poder aquisitivo. Este tipo de atitude é sintomático, e mostra que o dinheiro vai provavelmente ter prevalência nas atividades desportivas propriamente ditas.

Mas, quem irá culpá-los por isso, se os jogadores do passado morreram esquecidos ou com dificuldades financeiras e/ou de sobrevivência?

Idealmente, sob o ponto de vista educacional, a situação financeira não deveria chegar ao ponto que chegou. O esporte é uma atividade saudável de competição e não necessariamente de conquista financeira, se ela vier que seja pela consequência da qualidade do esporte praticado. Está cada vez mais evidente perante aos olhos dos leigos, que o aumento salarial não se reflete na qualidade da performance, ou, no mínimo, não existe correlação estatística de que uma coisa pese na outra. Atletas que ganham menos são muitas vezes melhores do que os seus colegas de profissão abastados!

Atualmente, como torcedor antigo e fã do futebol, eu confesso que vejo com pessimismo qualquer mudança que ressuscite o futebol que este país já teve, mas, como todo esporte, o futebol é sempre uma caixinha de surpresas, portanto é possível que uma mudança ocorra quando menos se espera! [Webinsider]

. . .

O seriado-documentário Brasil 70: A Saga do Tri

Os padrões de TV nas Copas do Mundo

EL PRE$IDENTE, o futebol visto de outro ângulo

 

Como exaurir um atleta de competição em 10 fáceis lições

Avatar de Paulo Roberto Elias

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on telegram
Share on pocket

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *