O primeiro fone de ouvido aberto foi fabricado pela Sennheiser e eu, ainda estudante, consegui comprar um. Hoje, fones de ouvido de qualquer tipo são usados por todo mundo.
Eu comecei a minha vida como professor ainda terminando a faculdade, trabalhando em um colégio de freiras, onde fui à convite. O colégio, tal como as tradicionais instituições de ensino católicas, davam aula para apenas um sexo, no caso feminino, acreditando serem mais didáticas e produtivas. Eu fui, acreditem se quiser, o primeiro professor homem daquela escola, mas como sendo católico e tendo estudado em um colégio com as mesmíssimas características, me adaptei rapidamente.
As aulas eram para a formação profissionalizante de técnicas de ensaios de laboratório. Uma das freiras implicou comigo, porque ela achava que as minhas aulas estavam em um nível muito alto para as alunas do colégio. Como eu não abaixei o nível, no fim do ano ela me despediu. Depois eu soube que as outras freiras souberam e não gostaram. Paciência. Mas, eu ganhava muito pouco por hora-aula, era solteiro, e assim ser demitido não me afetou em nada. Pelo contrário, recebi um FGTS, juntei as minhas economias e fui em frente.
Em uma exposição que visitei na época, conheci um senhor simpático, que era dono da Eurobrás e com ele conheci também o agora icônico fone de ouvido Sennheiser HD414, e fiquei fascinado com o design. Peguei o meu FGTS e gastei tudo lá.
Nunca tinha visto um fone daquele tipo. A Sennheiser havia lançado o primeiro fone de ouvido aberto, com uma acústica diferente dos fones fechados. Para proteger o ouvido, o fone usava espumas, cujo único inconveniente era de se decompor com o tempo de uso. Aquele senhor da Eurobrás gentilmente me deu vários pares sobressalentes, que duraram anos.
Anos mais tarde, eu vi na casa de amigos um daqueles fones eletrostáticos, caríssimos, os quais, ao contrário dos fones dinâmicos, como o HD414, que podem ser conectados diretamente em qualquer conector de saída de fone, eles exigem um pré amplificador especificamente desenhado para eles.
O meu HD414 me deu prazer auditivo por algum tempo. Foi bom, enquanto durou. Anos depois, o 414 começou a dar mal contato nos conectores e nesta época da minha vida, eu já tinha desistido de usar fones. Hoje eu vejo todo mundo se munir de um, para uso no celular, mas confesso que nunca mais vou usar um.
A Eurobrás e a Sennheiser
Desde aquela época do HD414 eu nunca mais tive contato com a Eurobrás. Aparentemente, ela ainda está lá na Avenida Graça Aranha, no Centro da cidade do Rio de Janeiro. A empresa importava e vendia basicamente produtos alemães para uso em estúdios. Uma das principais fabricantes de microfones profissionais foi exatamente a Sennheiser. O catálogo da Eurobrás mostrava todos os modelos em uma brochura:
Algumas páginas sugeriam o posicionamento desses microfones, de acordo com cada instrumento a ser gravado:
Além disso, uma cartela com os principais modelos era fornecida, com uma parte deslizante colorida, para sugerir o melhor modelo Sennheiser para instrumentos específicos:
A Eurobrás também vendia câmeras de 16 mm, similares às americanas Auricon, estas muito usadas por emissoras de televisão, que permitiam gravar o som ótico na película durante a filmagem. Eu posso estar enganado, mas o modelo vendido por eles foi o da Arriflex BL, muito conceituada neste segmento de mercado:
Produtos alemães de áudio sempre tiveram um enorme prestígio, desde as antigas vitrolas, até os dias de hoje. Seus microfones, como os Telefunken e Neumann, foram usados no mundo inteiro, e ainda são referência em muitos estúdios.
A gravação de áudio é uma arte, misturada com a ciência que a cerca. Estúdios experimentam todo tipo de arranjos de posicionamentos de microfones, além da escolha dos modelos adequados e do tipo de gravação a ser feito. As técnicas e métodos variam desde o modelo minimalista, com apenas um microfone, até aquele mar de microfones próximos de solistas ou orquestras.
Os nossos ouvidos agradecem. Muitas dessas gravações acabam se tornando para nós uma referência não só para ouvir música, como para avaliar equipamentos. E ficam para sempre como importante parte da história da vivência de qualquer um que goste de música, ouvindo ou tocando um instrumento. [Webinsider]
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Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.













