Remasterização e preservação de fonogramas

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Colecionadores procuram reedições dos antigos elepês, pois a remasterização é uma forma de preservar gravações que não existem mais.

 

Quando o CD foi lançado na década de 1980, quem se interessou pela nova mídia ficou na expectativa de ver as gravadoras relançarem não só as últimas edições de elepês feito com matrizes digitais, como também a transcrição moderna dos discos de catálogo.

Para alguns desses últimos títulos a espera durou uma eternidade. Em muitos casos, o motivo foi a perda das matrizes de fita magnética, em outros a deterioração e/ou ruína dessas matrizes. Fitas antigas soltando óxido tornavam a recuperação muito difícil. Uns anos atrás, recorreu-se ao aquecimento das fitas controlado em estufa, de modo a soltar o que estava grudado, e imediatamente remasterizar o que sobrou, antes de ver tudo perdido de vez.

A tecladista famosa e engenheira de gravação Wendy Carlos, a primeira que gravou com sintetizador Moog, declarou que levou algumas das suas gravações para a estufa, para depois fazer o relançamento em CD.

O desaparecimento das gravadoras

Muita coisa ficou para trás, porque as gravadoras faliram ou desapareceram, deixando as matrizes ao Deus dará. Anos atrás, um grande amigo meu me chamou a atenção para uma gravação do Quarteto 004, com quem ele tinha uma amizade antiga, chegando a cantar juntos, na base da farra.

O disco era Retrato em Branco e Preto, produzido pela Codil, e lançado com o selo Ritmos. O elepê era mono, guardado com carinho fanático por este meu amigo. Um dia, querendo preservar o conteúdo, ele remasterizou o disco e com a ajuda de um programa simulou um som estéreo, parecido com aquele Duophonic da Capitol. Depois, ele me deu uma cópia.

Um dia, ele foi procurado por um conhecido dele, que sabia que ele tinha o disco e pediu uma cópia para relançar em CD. Então, ele, sabendo que eu fiquei anos restaurando e remasterizando os meus últimos elepês, me pede para fazer alguns acertos nas gravações, antes de passar a cópia ao amigo dele. Tendo feito isso, o CD foi lançado pelo selo Discobertas. Aparentemente, o disco se esgotou rapidamente. Eu, idiotamente, não guardei a minha cópia reeditada e nem recebi uma cópia do CD.

A Codil, que desapareceu há décadas, deixou muita coisa para trás, e parece que os seus antigos elepês viraram cult de colecionadores.

Discos que são relançados sem que ninguém saiba

Fora do Brasil, selos independentes fizeram relançamentos de gravações nossas, mas só quem soube disso, importou os discos lá de fora. Na casa de amigos, eu vi vários discos do Eumir Deodato, feitos para a Equipe. Tempos depois, um leitor da coluna relata que ele tinha posse dessas matrizes, não me lembro o nome dele. Entretanto, o grupo Brasil Música remasterizou e relançou todos os discos do Eumir e Os Catedráticos para a Equipe, fazendo questão de reeditar algumas mixagens feitas especificamente para os elepês como faixas bônus. O trabalho deles foi muito bem feito e quem comprou se deu bem.

O UMG (Universal Music Group) japonês relançou A Grande Bossa dos Cariocas, com o original em estéreo, que nunca saiu aqui, e vários discos do Tamba Trio, desta mesma época, gravados na Philips. Eu conheci o Bebeto, do Tamba, e passei isso a ele, porque nem ele tinha mais essas gravações. Só que, para conseguir esses CDs seria preciso importar, e eu não sei se ele fez isso. Aliás, o Bebeto ficou muito chateado com esses lançamentos, porque o UMG (e várias outras empresas do ramo) nunca pagou royalties pelos fonogramas, que ele achava que tinha direito.

Falando novamente em Tamba Trio, um tal selo europeu chamado Aquarela do Brasil lançou um CD com as duas primeiras gravações do Tamba em um único CD.

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Anos atrás, um amigo meu americano me mandou uma cópia do disco Avanço, lançado no Japão, e eu salvei o disco, porque o meu antigo elepê já estava roto e eu não quis remasterizar. Já o primeiro disco, eu fiz isso e o som está razoável. A reedição do Aquarela do Brasil mostra ambos os discos com um pouco mais de fidelidade, provavelmente pelo acesso às fitas de segunda geração enviadas à Europa. Valeu a pena.

Para o colecionador, é uma pesquisa que não termina nunca

É verdade que o Spotify e outros serviços oferecem discos fora de catálogo, mas a cópia não pode ser tocada sem o aplicativo, ótimo para quem se contenta com isso. Mas, para quem quer ter o disco em casa, elepê, fita ou CD, este jeito é manco.

A realidade para o colecionador é dura, em termos de preservação, porque reedições em disco custam dinheiro, e a mídia está comercialmente desacreditada. Assim, só com muita força de vontade é que se pode continuar pesquisando e monitorando o relançamento de algum disco de interesse.

Uma coisa é certa: tem muita música gravada que não vai ver a luz do dia, mesmo caindo em domínio público. Haja paciência…

Remasterizações com aperfeiçoamento técnico

Embora o CD tenha sido projetado para um formato que não pode ser alterado por ninguém (44.1 kHz/16 bits), nada impede que a master a ser digitalizada seja submetida a aprimoramentos técnicos, que foram comentados por aqui anos atrás.

São eles, resumidamente, o HDCD (“High Definition Compact Disc”, XRCD (“Extended Resolution Compact Disc”), baseado no processo K2 Super Coding, desenvolvido pela JVC e pelo Victor Studio.

Todos esses métodos de masterização deram sucesso, porque é tecnicamente possível converter (digitalizar) a matriz analógica com uma taxa de amostragem e definição e depois converter o resultado para os mandatórios 44.1/16 do CD, sem perda de qualidade.

O resultado pode até não agradar, em comparação com a mesma master sem este tipo de processamento, mas para quem procura uma fonte de áudio com o máximo de detalhamento na reprodução, as edições aprimoradas têm mostrado que ainda é possível se retirar mais informações e mais fidelidade, guardadas as devidas limitações das fitas analógicas.

Para quem ainda acha que o CD é “midi-fi”, o resultado deste tipo de aprimoramento pode surpreender. Até agora, nenhum serviço de streaming mostrou que tem a mesma qualidade de reprodução! [Webinsider]

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O assassinato do áudio de alta resolução

 

O lado romântico das fitas cassete

CD, HDCD e XRCD

Avatar de Paulo Roberto Elias

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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4 respostas

  1. Olá Paulo…
    Recebi uma postagem dando conta que já estão vendendo uma prensa de vinil portátil, que pode ser acoplada a toca discos domésticos…
    Isso é ruim, pois diante desse quadro a pirataria, esse ato reprovável vai chegar aos discos de vinil.
    Estou enviado o link para seu conhecimento, mas pode omitir caso ache necessário.

    https://www.instagram.com/reel/DZ0hg3gx-5f/?igsh=enVzZThheXY0cG82

    A que ponto chegamos hein ?
    Um abraço.

    1. Oi, Rogério, não vou omitir. Acho a ideia estúpida, inclusive. Na década de 1970 eu estudei corte de acetato e tenho certeza de que não é uma tarefa fácil cortar um acetato de forma correta. O que aquele cidadão está vendendo é ilusório, mas compra quem quiser.

  2. Nunca tinha ouvido falar dessa Codil Discos, que tem um catálogo muito interessante.
    Fico sempre chocado com essas histórias de descaso com as matrizes – desde o caso da RCA que implodiu o prédio cheio de matrizes, as enchentes da Rozemblit, um acervo de matrizes (não lembro se era da Som Livre) que sofreram tb com a água na Iron Mountain, etc.
    Quem sabe esse revival do vinil, do CD, traga novamente excelentes reedições em mídia física.

    1. Oi, André,

      Esse “revival” do vinil, a meu ver, é fogo de palha, feito para atender uma comunidade muito pequena, por isso acho pouco provável que isto sirva de pretexto para ressuscitar catálogo. Eu posso estar enganado, não sou dono da verdade, mas mesmo assim…

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